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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Horror na sinagoga


ORIENTE MÉDIO
Dois palestinos invadem templo judaico em Jerusalém e usam cutelo, machado e pistola para matar quatro rabinos.Netanyahu promete resposta com "punho de ferro", ordena prisão de familiares dos militantes e demolição de casas. Obama pede calma
RODRIGO CRAVEIRO

Um atentado palestino com requintes de crueldade, em Jerusalém Oriental, agravou a tensão no Oriente Médio, atraiu a repulsa da comunidade internacional e levou Israel a anunciar uma resposta com “punhos de ferro”. “Nós estamos no meio de uma batalha por Jerusalém, nossa capital eterna”, proclamou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que acusou o Hamas, a Jihad Islâmica e a Autoridade Palestina de disseminarem “incontáveis calúnias e mentiras contra o Estado de Israel”. “Eles dizem que os judeus estão contaminando o Monte do Tempo. Dizem que nós queremos destruir seus locais sagrados e que desejamos mudar os arranjos para oração lá. É tudo mentira”, acrescentou o premiê, que instou a população a não fazer justiça com as próprias mãos.

Por volta das 7h (1h em Brasília), os primos Ghassan Abu Jamal, 32 anos, e Oday Abu Jamal, 22, invadiram uma sinagoga ultraortodoxa no bairro de Har Nof . Armados com um cutelo, um machado e uma pistola, mataram quatro rabinos — três de dupla cidadania israelo-americana e um britânico (veja o quadro) — e feriram nove pessoas, cinco delas gravemente, antes de serem executados. No fim da noite de ontem, um policial atingido pelos extremistas também morreu.

“No meio da Shacharit (oração diária matinal), enquanto se envolviam no tallit e no tefillin (vestimentas tradicionais), quatro rabinos foram abatidos, quatro judeus puros e inocentes. Os animais que cometeram esse massacre vieram carregados com grande ódio procedente da incitação contra o povo judeu e seu país”, declarou Netanyahu, que ordenou a demolição de casas das famílias de Ghassan e Oday, no bairro de Jabal Mukaber, em Jerusalém Oriental. Ao menos 12 parentes dos extremistas, incluindo a mulher, a mãe e o irmão de Ghamal, foram detidos. As Brigadas Abu Ali Mustafa, a ala militar da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), reivindicaram a autoria do ataque, um dos mais sangrentos em anos.

O chefe de governo culpou indiretamente o presidente palestino, Mahmud Abbas. “Sem enviar terroristas para que cometam atentados, ele deixa a incitação à violência correr solta no seio da Autoridade Palestina”, disse. Por sua vez, Abbas divulgou um comunicado por meio do qual “condena o ataque aos fiéis judeus em seu local de oração e condena o assassinato de civis, não importa quem o faça”. Em uma medida polêmica, o ministro da Segurança Pública, Yitzhak Aharonovitch, anunciou que Israel vai aliviar os controles sobre o porte de armas, a fim de garantir a autodefesa. Por sua vez, o presidente norte-americano, Barack Obama, condenou “o terrível ataque” e pediu “calma” aos dois lados. “Neste momento delicado em Jerusalém, é muito importante que os líderes israelenses e palestinos e que as pessoas comuns atuem juntos para reduzir as tensões, rejeitar a violência e buscar um caminho para a paz”, alertou. O FBI, a polícia federal dos EUA, vai ajudar nas investigações.



Por telefone, Ghazi Hamad, líder e porta-voz do movimento fundamentalista islâmico Hamas (leia Três perguntas para), afirmou ao Correio que o massacre em Jerusalém era esperado, mas negou envolvimento da facção. “O que ocorreu hoje (ontem) foi o resultado da política maluca e de confrontação do governo Netanyahu, que se lança rumo a uma nova intifada”, advertiu. “Netanyahu não pode ficar acima da lei internacional. Ele confisca nossas terras e impõe bloqueios a Gaza. Nunca desistiremos”, acrescentou. Sami Abu Zuhri, também porta-voz do Hamas, admitiu que o grupo conclama novas operações similares.

Caos e pânico

Mati Goldstein, oficial chefe do serviço de resgate internacional Zaka, foi um dos primeiros a chegar à sinagoga, cinco minutos após o ataque. “Muitas pessoas gritavam, foi algo difícil de ver. É de partir o coração pensar nos restos mortais, na carne e nos corpos”, relatou ao Correio, por telefone. “Os dois terroristas entraram com uma pistola e com um cutelo enorme. As vítimas não tiveram chance. Algumas foram abatidas a tiros e golpeadas várias vezes com a lâmina”, lamentou. Também socorrista, Yossi Frankel chamou de “caos e de desastre” o que viu. “Nenhuma palavra pode descrever o que testemunhamos lá. Sou voluntário há 11 anos. Foi o pior atentado que já presenciei. Os rabinos foram mortos a sangue frio”, contou, também por telefone. Milhares de judeus acompanharam os funerais.

Professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, Alon Ben-Meir não descarta que a extrema-direita pressione Netanyahu a uma resposta mais dura. “A situação em Jerusalém está cada vez mais tênue, e qualquer reação importante dos israelenses apenas vai instigar mais violência por parte dos palestinos. Netanyahu faria bem se trabalhasse com Abbas para reduzir as tensões e prevenir mais derramamento de sangue”, comentou por e-mail. O especialista adverte que o alívio nas restrições ao porte de armas pode enviar uma mensagem errada aos extremistas. “As forças israelenses deveriam reforçar a segurança em Jerusalém, e não buscar encorajar o vigilantismo entre a população”, concluiu Ben-Meir.
Três perguntas para
GHazi Hamad, vice-chanceler, porta-voz e líder do Hamas

Como o Hamas avalia o atentado contra a sinagoga em Jerusalém?

Isso é um desdobramento da revolta que há dois meses afeta Jerusalém. No mês passado, o governo e as forças de ocupação israelenses fizeram muitas coisas para atingir os palestinos em Jerusalém. Eles permitiram a expansão de assentamentos em locais sagrados, especialmente na Mesquita de Al-Aqsa.

Permitiram aos colonos entrarem na mesquita. Um garoto palestino foi morto em Jerusalém. Ontem (segunda-feira), enforcaram um motorista de ônibus palestino. Todos os dias, vemos políticas malucas do governo israelense e dos extremistas de direita de Israel. Eles tentam expulsar os palestinos de Jerusalém e derrubam casas. Nas últimas duas semanas, os palestinos começaram a fazer protestos. Se Israel não parar, isso vai virar um novo levante. Não se pode ter muita paciência por muito tempo.

Mas esse ataque foi uma operação do Hamas?

O Hamas não tem responsabilidade sobre a ação em Jerusalém. Mas isso é uma confluência natural, um resultado dos  crimes israelenses contra nosso povo.

A terceira intifada já começou?

Os nomes “intifada”, “revolução” ou “levante” são errados. O que existe é uma confrontação à ocupação. Precisamos de uma batalha contra essa ocupação até estabelecermos nosso Estado soberano. Nós esperamos que a batalha continuará. Espero que a situação se deteriore, especialmente em Jerusalém.

(RC)
Correio Braziliense

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