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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Como é passar o Natal no espaço?


25 de dezembro de 2010. O dia em que Papai Noel visitou não só as crianças do mundo, mas também os astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional (EEI).

Na ala americana da estação, o astronauta da Agência Espacial Europeia Paolo Nespoli foi o primeiro a acordar. Abriu a porta de seu compartimento e encontrou uma meia de Natal amarrada à maçaneta, cheia de presentes.

"Ainda me lembro do susto que levei", brinca Nespoli. "E quando os outros acordaram e também encontraram presentes em suas portas, nos olhamos e percebemos que nenhum de nós tinha trazido aquilo para a órbita."

Ao que parece, essa não foi a primeira vez que Papai Noel visitou o espaço. Em dezembro de 1965, as missões Gemini 6 e 7 reportaram terem visto o "bom velhinho".

Logo após um encontro entre as duas espaçonaves em órbita, o astronauta Thomas Stafford, da Gemini 6, relatou ter avistado "um satélite viajando do norte para o sul, provavelmente em uma órbita polar."

"Parece que o objeto vai entrar na atmosfera novamente", disse Stafford, alertando os membros de controle da missão na Terra, cada vez mais apreensivos. "Não saiam daí... deixem eu ver se posso alcançá-lo."

E aí, pelo rádio, os engenheiros no solo escutaram os acordes de Bate o Sino, tocados por Stafford e seu colega de tripulação Wally Schirra, com uma gaita e alguns guizos – os primeiros instrumentos musicais surrupiados para o espaço.

Bíblia e velcro

Velcro é fundamental para que os alimentos da ceia de Natal fiquem sobre a mesa
O Natal sempre foi uma data importante para os astronautas americanos, principalmente para aqueles que são religiosos praticantes. A maior demonstração disso foi durante a missão Apollo 8, quando os primeiros homens orbitaram a Lua.

Na noite de Natal de 1968, depois de verem o Planeta Azul se levantar por trás do horizonte da desolada paisagem lunar, Frank Borman, Jim Lovell e Bill Anders fizeram uma transmissão ao vivo para a Terra.

A Nasa não tinha preparado nenhum pronunciamento e deixou que a tripulação falasse. Os três se revezaram lendo trechos do livro do Gênesis, e Borman encerrou dizendo: "Boa noite, boa sorte, um Feliz Natal, e Deus abençoe todos vocês – todos vocês da nossa bela Terra".

Mesmo para quem não segue uma religião, a leitura da Bíblia foi incrivelmente emocionante. Mas levantou polêmica. A Nasa foi processada por um ativista ateu por supostamente introduzir religião em um programa do governo.

O caso foi derrubado pela Suprema Corte americana, que argumentou que o governo não tinha jurisdição sobre algo que ocorreu na órbita lunar.

Hoje, apesar da variedade de culturas representadas a bordo da EEI – europeus, americanos, japoneses e russos, entre outros -, o dia 25 de dezembro se tornou um feriado tradicional no espaço.

Além de um ou outro trabalho essencial de manutenção, os tripulantes têm folga na maior parte do dia e se reúnem para um jantar especial na área social da estação, o módulo russo. Essa área conta até com uma mesa, que é coberta com velcro para que tudo fique no lugar.

Alguns astronautas comem peru fatiado, batatas reconstituídas e legumes processados. Mas a versão espacial da ceia natalina não costuma ser muito saborosa.

Nespoli e outros colegas, por exemplo, optaram por tortellini de queijo, bifes e legumes. Os tripulantes também têm autorização para trazer algumas guloseimas da Terra, como chocolate, biscoitos e nozes, mesmo sabendo que qualquer coisa que se esfarele muito pode acabar entupindo os dutos do ar condicionado.

Telefonemas e 'lei seca'

Terra vista da órbita lunar, em imagem feita pela missão Apollo 8, o Natal de 1968
Depois do jantar, os astronautas tocam instrumentos, assistem a um filme ou telefonam para familiares e amigos na Terra. "É meio triste porque você não pode passar o Natal com eles, mas ao mesmo tempo você entende a singularidade da situação", diz Nespoli.

"Poder ligar do espaço para as pessoas e desejar a elas um Feliz Natal é algo muito especial."

A EEI tem até enfeites natalinos e uma árvore de Natal artificial de 60 cm de altura, à prova de fogo.

E para muitos astronautas, o Natal no espaço é a primeira folga que eles têm em anos. Segundo Nespoli, isso se deve ao intenso calendário de treinamento antes de serem enviados à EEI, que os faz perder feriados e fins de semana mesmo em Terra.

Uma das poucas coisas proibidas na estação são bebidas alcoólicas – mesmo que o filme Gravidade mostre o contrário. Apesar dos rumores de que os russos têm um compartimento secreto para estocar vodca, isso é praticamente impossível.

O motivo: o sistema de processamento de água da EEI, que recicla em água potável todo o conteúdo de água proveniente da respiração, do suor e da urina dos astronautas, ficaria sobrecarregado se houvesse álcool nas tubulações.

E aqueles presentes pendurados na porta dos americanos da EEI no dia de Natal de 2010? Teria sido um Papai Noel cósmico? O segredo é revelado por outro astronauta da estação, Andre Kuipers, que chegou ali um ano depois de Nespoli.

"Eram presentes personalizados, enviados por nossos familiares e pessoas queridas que ficaram na Terra", conta Kuipers. "Eles juntaram os presentes em abril, antes de a gente chegar, e mandaram em uma nave de carga. Foi maravilhoso!"

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.

BBC - Brasil

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