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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Boko Haram: como os militantes nigerianos ficaram tão poderosos?

Militantes islâmicos têm laços com traficantes de armas do Sahel

O grupo militante islâmico Boko Haram está travando hoje uma das campanhas mais mortíferas de insurgência na África.

Eles capturaram uma grande porção de território na Nigéria e também realizaram ataques no vizinho Camarões.

Autoridades estimam que cerca de três milhões de pessoas são afetadas pela crise humanitária causada pela insurgência na região nordeste da Nigéria.

A força do grupo rebelde em um dos países mais populosos do continente, sua capacidade de ação e influência na região levantam várias dúvidas - que a BBC responde abaixo no formato perguntas e respostas:

Por que os militantes são tão letais?

O grupo seria dividido em várias facções que operam de forma autônoma pelas regiões norte e central da Nigéria.

O centro de estudos Grupo de Crise Internacional (IGC na sigla em inglês) estima que sejam seis facções ao todo. A mais organizada e impiedosa opera no Estado de Borno, onde o Boko Haram capturou grandes faixas de território.

A estratégia usada pela milícia é enviar centenas de combatentes comuns para uma cidade ou vilarejo. Eles com frequência conseguem superar numericamente as mal supridas forças do Exército nigeriano, que acabam se retirando.

Em seguida, combatentes mais experientes do Boko Haram conquistam o território.

A ofensiva atual dos militantes islâmicos marca uma mudança radical no cenário do país. Logo depois do Boko Haram lançar sua revolta em 2009, as forças de segurança nigerianas declararam ter vencido o grupo após matar milhares de seus membros – incluindo seu fundador – em uma operação na cidade de Maiduguri.

Alguns sobreviventes escaparam para a Argélia, para o Sudão e possivelmente para o Afeganistão, onde receberam treinamento militar.

Atualmente, a brutalidade na forma de operar do grupo está crescendo. Com isso, eles perderem apoio, segundo analistas, de muitos muçulmanos do país – que os viam como uma alternativa à elite corrupta.
Como eles recrutam seus militantes?

Cada vez mais por conscrição – os moradores das vilas são forçados a aderir em massa ao grupo sob ameaça de serem assassinados. Eles também contratam criminosos "pagando-os por ataques, às vezes com uma parte das riquezas pilhadas", segundo o IGC.

Os laços étnicos são muito fortes na Nigéria. A maioria dos combatentes do Boko Haram são kanuri – a etnia do líder do grupo, Abubuakar Shekau. Isso sugere que ele goza de influência sobre líderes tradicionais do nordeste do país.

A quantidade total de combatentes do Boko Haram não é clara. O analista de segurança e finanças britânico Tom Keatinge estima que sejam mais de 9 mil.


De onde vem o dinheiro que financia o Boko Haram?

Quando o grupo invade cidades normalmente saqueia seus bancos. Em 2012, autoridades militares da Nigéria acusaram o Boko Haram de extorquir dinheiro de empresários, políticos e figuras do governo. Eles os ameaçavam de sequestro se não pagassem as quantias exigidas.

Autoridades americanas estimam que os militantes recebem até US$ 1 milhão (cerca de R$ 2,6 milhões) pela libertação de um milionário nigeriano, segundo Keatinge.

Mas quando a vítima é estrangeira, a quantia obtida pode ser muito maior: o Boko Haram recebeu US$ 3 milhões (R$ 7,7 milhões) de resgate para libertar uma família francesa de sete pessoas capturadas no norte de Camarões em fevereiro de 2013, de acordo com um documento da Nigéria obtido na época pela agência de notícias Reuters.

Com essas fontes de financiamento, Keatinge estima que os rendimentos anuais da rede do Boko Haram cheguem a US$ 10 milhões. O pesquisador nigeriano Kyari Mohammed diz acreditar que o grupo esteja realizando uma rebelião de baixo custo por usar principalmente jovens de áreas rurais.


Como o grupo obtém armamentos?

O Boko Haram invadiu muitas delegacias de polícia e bases militares na Nigéria, obtendo assim um bom arsenal – incluindo blindados de transporte de tropas, caminhonetes, lança-rojões e fuzis de assalto.

Além disso, o grupo mantém fortes laços com contrabandistas de armamentos que operam na vasta região do Sahel (faixa de aproximadamente 600 quilômetros de largura e 5,5 mil quilômetros de extensão, que corta o norte da África, logo abaixo do deserto do Saara e acima da savana do Sudão), segundo o ICG.

Muitas dessas armas teriam sido contrabandeadas da Líbia, onde arsenais foram saqueados durante a revolta que levou à queda do coronel Muamar Khadafi em 2011.

Porém, boa parte das bombas usadas pelos militantes islâmicos são improvisadas, construídas com materiais baratos e de acesso relativamente fácil, segundo o IGC.

Seus especialistas em explosivos, segundo o analista de segurança nigeriano Bawa Abdullahi Wase, são universitários recém-formados que não conseguiram empregos.

Além disso, recentemente o grupo saqueou fábricas de cimento em busca de dinamite e artefatos explosivos.

O governo declarou estado de emergência em 2013 em três Estados nortistas mais afetados pela campanha insurgente. As forças do governo também armaram grupos de vigilantes, que operam em regiões remotas onde a presença militar é mínima.

O Boko Haram foi empurrado de Maidaguri e vilarejos vizinhos para a vasta região das florestas de Sambisa, ao longo da fronteira com Camarões. Mas os militantes responderam com uma nova ofensiva que deu a eles o controle de um território de dimensões equivalentes à da Bélgica.

Se o Boko Haram tiver sucesso em suas ambições territoriais – conquistando cidades no Níger, no Chad e em Camarões, como ameaçou seu líder – o conflito pode tomar uma dimensão internacional.

A França pode por exemplo se envolver mais diretamente no conflito para proteger suas ex-colônias.

Até agora Camarões tem tido relativo sucesso em repelir os ataques do Boko Haram, apesar de ter um Exército muito menor que o da Nigéria, que vem sendo criticada por não usar bem sua vantagem numérica.


O Boko Haram é ligado ao 'Estado Islâmico'?

Shekau, o líder do Boko Haram, se referiu ao líder do autodeclarado "Estado Islâmico", Abu Bakr al-Baghdadi, em um vídeo no ano passado como "califa". Ele também elogiou Ayman al-Zawahiri, liderança da rede extremista Al-Qaeda - que disputa com o "Estado Islâmico" a lealdade dos jihadistas ao redor do mundo.

Porém, Shekau não jurou aliança a nenhum dos dois grupos.

Ele costuma elaborar suas mensagens nas línguas hausa, árabe e kanuri, mas em seu mais recente vídeo – no qual elogia os ataques contra a revista satírica Charlie Hebdo em Paris – o discurso foi feito totalmente em árabe, o que leva analistas a acreditar que o grupo nigeriano esteja buscando ter um apelo mais internacional.

Laços fortes com grupos jihadistas globais dariam um ímpeto maior à campanha do Boko Haram.


BBC - Brasil

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