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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Snipers defendem precisão para salvar vidas: 'Acertar é única opção'

Atirador da PM-RJ, Busnello matou sequestrador com
tiro na cabeça em 2009 (Foto: Arquivo pessoal)

Tahiane Stochero Do G1, em São Paulo

Snipers defendem precisão para salvar vidas: 'Acertar é única opção'.

Atiradores de elite do Brasil negam tensão em apertar o gatilho à distância.
Filme 'Sniper Americano' mostra dilema de militar que matou 150 em guerra.

Ninguém sabe onde ele está. Posicionado no topo de um prédio, em uma janela, em um vão, ele tenta passar imperceptível, ter a melhor visão da situação a longas distâncias e fazer o tiro certeiro e perfeito. É esse o trabalho do "sniper", o franco-atirador.

Para os atiradores de elite brasileiros ouvidos pelo G1, não há problema moral em apertar o gatilho a 50, 100 ou 500 metros para matar o alvo com um único disparo. Entendem que foram preparados para isso e que sua ação, quando necessária, é para salvar vidas.

Nesta quinta (19), estreia nas telas do país o filme “Sniper Americano”, que conta a história de Chris Kyle, considerado o mais letal atirador de elite dos Estados Unidos, com mais de 150 mortes confirmadas em guerras.

O filme relata momentos em que o militar sofria ao tomar a decisão de atirar em crianças e mulheres que atacavam soldados e situações em que também se cobrava quando não conseguia salvar a vida de um combatente. O filme quebrou recordes de bilheteria e gerou polêmica nos EUA.

“O filme tenta dar mais humanismo ao atirador, é mais hollywoodiano. Não há este dilema de atirar para matar, sou muito esclarecido quanto a isso. Alguém está praticando alguma coisa de mal contra quem você jurou defender e proteger e você tem que fazer seu trabalho”, afirma o tenente-coronel João Jacques Busnello, da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Foi ele quem, em 2009, deu o disparo certeiro na cabeça de um criminoso que mantinha uma mulher refém com uma granada na Tijuca, zona norte da cidade (veja vídeo ao lado). Após ter a autorização, o atirador esperou 20 minutos para fazer o disparo capaz de matar o criminoso sem acertar a refém.

“Quando ele colou o pino na granada e a refém começou a vomitar, vi que era a hora. Eu estava 100% com certeza do tiro, só pensava em salvar a vítima”, diz. “Matar alguém, na minha visão, é salvar alguém”, afirma o coronel Busnello.

“A sociedade pagou o seu treinamento. Manter um atirador custa caro. Ou você protege aquilo que se propôs ou então vai ficar entregando as ovelhas para os lobos”, filosofa o oficial de 44 anos.

 Atualmente, as polícias do Brasil usam o sniper em quatro situações: em ocorrências com reféns, em rebeliões em presídios, na proteção da tropa em avanços durante operações em favelas e na proteção de autoridades durante visitas oficiais ou grandes eventos, como a Copa do Mundo.

Apelidado de "Assombroso", um sargento do Exército de 50 anos que prefere não ter o nome divulgado atuou por um ano como sniper na missão de paz da ONU no Haiti, participando de uma série de operações do Brasil para a conquista da área mais violenta do país caribenho. Ele relata ter disparado contra atiradores inimigos que tentavam matar soldados brasileiros.

"Quando você dispara, sabe que alguém vai morrer 'dentro' da sua luneta (o sniper mantém o foco no alvo até que ele tombe). Por isso, tem que ter maturidade. Às vezes, você fica muito tempo observando um homem armado e decide não eliminá-lo porque, logo atrás, há um barraco de madeira facilmente permeável por um tiro de fuzil, onde há a hipótese de haver inocentes que podem ser atingidos. É angustiante, porém, faz parte da vida do sniper. Por isso, o sniper é especial sobretudo dentro da cabeça", define Assombroso.

 Lidando com o perigo.



Atirador de elite do Exército que usa o codinome "Assombroso" matou criminosos durante a pacificação de favela no Haiti (Foto: Arquivo pessoal)
Caique Navas, de 43 anos, sniper de grupos especiais da Polícia Civil de São Paulo, conheceu o famoso atirador americano Chris Kyle, o personagem central do filme “Sniper Americano”, em uma competição na Flórida em 2009. Ele lembra que o colega de profissão vivia “atordoado” pela quantidade de mortes em seu legado.

“Chega um momento que fica complicado saber lidar com as mortes. Quando o conheci falou que, antes da morte de uma criança com um RPG (uma granada de grande poder de destruição) no Iraque, tinha matado outras 14 pessoas naquele mesmo dia”, recorda Navas. A cena em que o sniper americano decide sozinho atirar em um garoto de 4 anos que corre contra soldados com uma bomba nas mãos abre o filme.

 “Já senti muito medo, o medo nos deixa vivo e deve ser canalizado para sobreviver. Já errei muitos tiros em competições. Poucas coisas me deixam tão puto quanto errar um tiro. Na vida real, nunca errei”, diz Navas.

Em 2008, a técnica permitiu que atingisse dois assaltantes dentro de um carro em fuga no Butantã, na zona oeste de São Paulo, após a dupla ter invadido uma agência bancária. Antes dos disparos, os criminosos mataram um policial e atropelaram uma criança no caminho.

Os tiros de Navas atingiram o motorista e o passageiro do carro. “Não há dilema para atirar. O dilema é atuar na minha legítima defesa e dos outros. Minha consciência está limpa, fiz um bem para a sociedade.”

Assombroso, o atirador do Exército brasileiro, explica como lida com as mortes. "O sniper deve mentalizar sempre as vidas que ele estará preservando quando apertar o gatilho da arma. O tiro que ele der vai resolver um problema, não fazer parte dele. A hora vai chegar e...pow. Aquele tiro já tem que ficar pra trás, já é passado e o mundo certamente estará mais seguro, e isso é o mais importante", defende.

Luz verde

Treinamento de atiradores de elite do COT, a tropa de elite da Polícia Federal (Foto: Fabiano Tomazi/Arquivo pessoal)
Mas nem sempre os atiradores brasileiros tiveram “luz verde” (o termo é empregado para autorizar o sniper a dar o disparo fatal quando ele decidir que é o melhor momento). Em 2000, o sequestro do ônibus 174 no Rio retratou a omissão da polícia ao não realizar um tiro para matar um homem que manteve dez passageiros reféns. No fim, o sequestro acabou com a morte de uma mulher.

O cabo Reginaldo Honda foi um dos precursores do Grupo de Ações Táticas Policias (Gate), da Polícia Militar de SP, e desenvolveu as primeiras técnicas de tiro urbano nestas situações no país. Ele estudou os problemas que resultaram no erro do Gate em um disparo realizado por um sniper durante um sequestro em 1990. O tiro, após matar um dos sequestradores no segundo andar de uma casa na zona oeste de São Paulo, acabou transfixando o corpo do criminoso e matou também a refém, a professora de educação física Adriana Caringi, de 23 anos, que era usada de escudo.

 Quatro anos depois do episódio, Honda executou um dos disparos mais difíceis de sua vida: pelo vão de uma janela, a 32 metros de distância, matou um criminoso que mantinha 15 pessoas reféns dentro de uma padaria em Osasco.

“A negociação estava esgotada depois de cinco horas. Ele estava drogado, consumia cocaína e maconha, dizia que estava muito louco e ia matar todo mundo antes de se matar. O delegado falou na época que foi um tirambaço e nem quis ouvir meu depoimento”, lembra. “Sempre tive medo de errar, o medo é a defesa do ser humano. Ele podia ter matado todos ali, mas nunca errei”, diz.

“Uma das maiores vantagens do atirador de precisão é a capacidade de fazer disparos concisos a longas distâncias. Isso facilita sua ocultação e traz proteção. O criminoso nem sempre tem habilidade e uma arma com luneta para atingir o seu oponente a distâncias maiores que 50, 100 metros”, diz o instrutor da Polícia Federal Fabiano Tomazi, que foi atirador do Comando de Operações Táticas (COT), a tropa de elite federal.
 

Caique Navas é atirador da Polícia Civil de SP (Foto: Arquivo pessoal)
Tomazi entende que o sniper, mais que os demais profissionais de segurança, sofre uma pressão para não errar e até uma condenação prévia da imprensa, da sociedade e, posteriormente, do Judiciário.

"O atirador de precisão talvez tenha que trabalhar esse paradoxo de matar para viver de uma melhor forma que outros profissionais de segurança, pois muitas vezes estará longe do calor do combate e precisará efetuar um disparo para salvar a vida de um refém ou de outro policial. Para agravar esses dilemas internos, ele não pode falhar, sob pena de matar um inocente e carregar esse peso para sempre", conclui Tomazi.


Chris Kyle, o atirador dos EUA com mais de 150 mortes confirmadas em guerras, em foto de abril de 2012 (Foto: AP Photo/The Fort Worth Star-Telegram, Paul Moseley, File)

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