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quarta-feira, 13 de maio de 2015

POSTURAS CONTEMPLATIVAS E ASSALTOS ESPETACULARES: ONDE VAMOS CHEGAR?


É comum que nós que trabalhamos em segurança, de tempos em tempos, tomemos conhecimento de assaltos espetaculares, elaborados com enorme inventiva como foi o do túnel no BACEN ou do assalto ao Bingo no Rio de Janeiro com imitações dos veículos do DPF. Contudo ultimamente os assaltos espetaculares vêm se repetindo e muitas vezes são ações sem muita sutileza, se valendo primordialmente da força das armas e da violência.

Nós temos tido um monte de ações assim contra transportadoras de valores, grandes indústrias e eu me pergunto se já não teria passado do tempo pra modificar a nossa legislação de segurança privada...


Claro que num assalto como o que ocorreu ontem num depósito de produtos de uma grande rede de lojas de varejo ou numa grande indústria de produtos eletrônicos, um fator chave para desencorajar uma ação delituosa dessa natureza seria a existência de uma central de segurança muitíssimo bem blindada, da qual se pudesse ter informação oportuna do sinistro de forma poder encaminhar o mais rapidamente possível a comunicação de emergência com a polícia. Porém não é só ter alguém em condições de chamar a polícia; é preciso saber se ela vai se fazer presente em socorro e em que medida isso vai acontecer! Cadê a cavalaria? Quando a gente precisar ela vai chegar? Os planejamentos de segurança pra fazer frente tudo isso, que obrigatoriamente dependem do apoio das forças de segurança como ficam?


Eu aprendi há muito tempo que a segurança de que queremos desfrutar só pode ser obtida a partir da combinação da maior quantidade possível de recursos de proteção, e aí repousam outros problemas. As instalações de segurança são de desenho apropriado e suficientemente robustas para dificultar às abordagens dos criminosos? Podem resistir a entradas forçadas? Podem tolher-lhes a fuga ou retardá-la de alguma forma?


E como está estruturada a segurança humana? Como é o serviço de guarda armada? Hoje, não dá pra fazer frente a esses grupos com profissionais fracos de formação, com revólveres e cinco munições sobressalentes. Eu tenho a perfeita consciência de que rivalizar "arma por arma" com os criminosos não dá, pois os caras estarão sempre na vantagem. Primeiro podem adqüirir qualquer coisa (até fuzis Barret de calibre.50") e que, além disso, ainda possuem a vantagem da surpresa. Contudo, a situação que hoje se configura é que eles não tem o menor temor de tomar tiro. Eu já tive de combater com arma de fogo e a minha experiência (decorrente da minha observação direta e da análise de um monte de outros casos que tomei e tomo conhecimento) me assegura que os criminosos gostam muito de dar tiros, nunca de tomá-los! Eles podem estar em maior número, eles podem ter superioridade bélica, mas se houver alguém armado, bem posicionado em condições de lhes atingir com alguma liberdade eles recuam.


Há um tempo que nós temos uma legislação risível do ponto de vista do armamento para segurança física de instalações. As espingardas calibre 12 - as "mais poderosas" armas longas autorizadas para emprego pela segurança privada - podem ser empregadas para escolta na rua
dentro de um Fiat Uno de escolta não blindado, com dois vigilantes, mas não são permitidas em indústrias e depósitos salvo raríssimas exceções!


Sei da necessidade de planejamentos e de prevenção, mas acredito que nada disso teria deixado a Casa da Moeda do Brasil à salvo, se ela não contasse com uma segurança orgânica de alto nível, com pessoal selecionado, com treinamento que excede em muito o estabelecido na legislação, bem pago e armado com o mesmo armamento que os bandidos poderiam empregar para atacá-la. Na Casa da Moeda a segurança privada emprega fuzis FAL e pistolas!


Ressalte-se que, mesmo não advogando que tenhamos de distribuir fuzis para as empresas de segurança, está claro que revólveres anêmicos, assim como as hoje “badaladas” armas não letais (como tonfas, pistolas Taser e espargidores de gás de pimenta) também não terão a menor aplicação nesse cenário tático onde os sujeitos, de fuzil chegam metendo o pé na porta. Quando hoje constatamos ser raro encontrar um segurança privado portando uma carabina de repetição alavanca que é basicamente a mesma que víamos nos filmes de faroeste, não há como não imaginar que estamos muitos passos atrás dos nossos oponentes. No Brasil do século XXI nos tornamos tão avessos às armas de fogo como instrumentos de dissuasão quanto submissos a elas quando usadas como elemento de coação. A quem aproveita isso?


Faço coro ao meu Mestre e amigo André de Pauli quando ele bem aponta que pecamos no uso de toda sorte de recursos de segurança mais eficazes do que as armas de fogo puras e simples; mas acredito verdadeiramente que, em última instância, a perspectiva de reação armada pode fazer com que os atacantes pensem duas vezes, da mesma forma que, numa ação extrema, ajudam a retardar os criminosos para que as forças de segurança do Estado façam o seu trabalho de prender.


Nós hoje estamos numa condição de capitular preliminarmente, sem sequer combater, e sinceramente isso não me agrada; agrada só aos bandidos! Eu nem vou comentar o fato de que, com as seguranças mal armadas, se abre um rentável mercado REAL para que policiais, nos dias de folga (e até mesmo, em certos casos no próprio expediente) possam suplementar sua renda alugando suas armas em serviços de segurança privada clandestina...


Poder-se-á sempre argumentar sobre o fato de que invasões e ataques ocorrem mesmo em unidades policiais e militares, onde ao menos teoricamente existiria um serviço de guarda bem melhor armado. 


Realmente isso é verdade e eu próprio já cansei aqui de exemplificar que nossas autoridades, ao menos no Rio de Janeiro, há muito vem desaprendendo a boa segurança física de instalações e estão aí os vulnerabilíssimos aquartelamentos policiais, sedes de UPPs e Delegacias Legais prodigiosamente envidraçadas e sem serviço de guarda que não me deixam mentir. Mas se somos capazes de perceber o que realmente está errado, temos de ensejar esforços reais para solucionar o problema. Se o empresário que normalmente não quer gastar com segurança puder perceber o impacto milionário de um assalto cinematográfico desses, há uma boa possibilidade dele olhar os requisitos da segurança com outros olhos.

Há que se endurecer os alvos e torná-los menos fáceis para os bandidos!


Ataques com grande número de criminosos contra unidades militares realmente acontecem no Brasil, mas normalmente se processam em unidades de logística, manutenção, depósitos e não me lembro de exemplos que tenham acontecido em unidades aguerridas, com planos de defesa bem exercitados e tropas melhor treinadas (como paraquedistas ou fuzileiros navais), onde os eventuais atacantes sabem que a possibilidade de terem de enfrentar um monte de tiros é realmente é muuuito maior!


Pra finalizar essa divagação sobre segurança, que começou tão logo eu soube do assalto ao centro de distribuição do Magazine Luiza, na região de Jundiaí, na madrugada do dia 2 de maio, vale lembrar a máxima que apregoa que “toda corrente só será tão forte, o quanto o for seu elo mais fraco” e ponderar que, aqui no nosso país temos nos acostumado a expor os reluzentes e grossos elos de aço-níquel e aparentemente esquecido que os mesmos estão conectados a outros de papier maché.

Vinícius D. Cavalcante, CPP o autor, é consultor em segurança, membro do Conselho de Segurança da ACRJ e Diretor da ABSEG na região Sudeste.

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