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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Manobras próximas a ilhas artificiais acirram disputa naval entre EUA e China

O destroier americano USS Lassen, aqui numa foto de 2009, realizou manobras próximos a ilhas artificiais contruídas pela China no Mar da China Meridional. PHOTO: REUTERS

Por ANDREW BROWNE, de Xangai

A rivalidade entre grandes potências no Mar da China Meridional chegou a um momento crucial.

A retórica dos Estados Unidos contra as provocativas reivindicações chinesas relativas à soberania marítima na área se transformou em ação militar.

Ao manobrar um navio de guerra a 12 milhas náuticas de uma das ilhas artificiais da China, os EUA sinalizaram o início de uma disputa aberta sobre o futuro da região. As águas em questão são uma rota importante por onde passa mais da metade do comércio marítimo mundial, conectando os países ricos em petróleo do Oriente Médio às poderosas economias do Pacífico Ocidental.

Além disso, o desafio americano se refere a uma disputa muito mais ampla que vai se arrastar por décadas.

As tais ilhas artificiais têm um valor militar apenas limitado, embora várias delas contenham pistas longas o suficiente para receber aviões de combate chineses. O mais importante é que elas são símbolos dos esforços de Pequim para subverter uma ordem regional liderada pelos EUA que prevalece desde a Segunda Guerra Mundial.

As ilhas proclamam a intenção da China de romper o que o país considera um cerco americano — um sistema de alianças que forma um amplo arco a partir da península coreana, passando pelo Japão e as Filipinas. Elas também simbolizam o fortalecimento do nacionalismo chinês sob o governo do presidente Xi Jinping.

Em um comentário contundente, a agência de notícias estatal chinesa, a Xinhua, afirmou que os EUA transformaram o Mar da China Meridional em “águas turbulentas”, acrescentando que “o povo chinês não tem medo de problemas”. O Ministério das Relações Exteriores da China expressou seu “forte descontentamento e resoluta oposição” à ação americana.

Para os EUA, as apostas são igualmente altas: seu futuro como potência marítima na Ásia e Oceania, a credibilidade de suas garantias de segurança aos aliados — todos eles preocupados com o crescente poderio militar da China —, e o princípio de que disputas territoriais devem ser resolvidas com base no direito, não na coerção.


A Casa Branca agonizou meses em função do exercício de “Liberdade de Navegação”, apesar de o Secretário de Defesa americano, Ash Carter, ter prometido que os EUA “vão voar, navegar ou operar em qualquer lugar que a legislação internacional permita”. A demora em combinar palavras duras com ações ameaça fazer os EUA parecerem um tigre de papel. No fim, a Marinha americana optou por despachar não uma flotilha, ou uma combinação de navios e aviões de guerra, mas um único destroier com mísseis guiados, o USS Lassen, para as proximidades do recife Subi.

Isso transmitiu uma mensagem dura, mas ainda assim contida, embora o Pentágono tenha deixado claro que o exercício será repetido.

A ação americana ocorreu sem incidentes, segundo o Pentágono. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou, ontem, que as autoridades chinesas acompanharam e alertaram o navio de guerra americano. Aparentemente, a China não tomou nenhuma ação adicional.

Um conflito amplo continua sendo improvável, mas há sempre o risco de um acidente se navios americanos e chineses começarem a fazer manobras muito perto uns dos outros em torno das ilhas Spratly.

Para começar, os EUA e a China não são inimigos. Esta não é a Guerra Fria e, apesar de as relações entre os países ser cada vez mais marcada por uma rivalidade estratégica, forças poderosas os compelem a cooperar um com o outro. Uma delas é um comércio bilateral que atingiu US$ 592 bilhões no ano passado. Os dois países também têm a obrigação de trabalhar em conjunto em questões globais como mudanças climáticas, terrorismo e epidemias.

Embora as ilhas artificiais tenham se multiplicado apenas recentemente, esse momento vem sendo construído há anos.

Um divisor de águas ocorreu em 2008, quando Wall Street mergulhou o mundo em uma crise financeira. A China chegou à conclusão que os EUA eram uma superpotência em declínio e que tinha chegado a sua vez. Desde então, a economia americana se recuperou, mas a imagem de um EUA solapado por guerras no Oriente Médio e incapaz de solucionar seus problemas orçamentários fortaleceu a China e forçou os países asiáticos a comtemplar um novo equilíbrio de poder na região.

Mas a China exagerou na dose. Sua impetuosa assertividade — da qual as ilhas artificiais são apenas um exemplo — alarmou seus vizinhos e foi recebida por uma “virada para a Ásia” da política externa dos EUA. Washington prometeu reposicionar suas forças navais, que ficavam 60% no Atlântico e 40% no Pacífico, para uma distribuição meio a meio.

Os EUA precisam ter cuidado para não pressionar demais a China. Seus aliados não querem se ver obrigados a tomar partido no caso de uma disputa. E, apesar de os EUA provavelmente prevalecerem num eventual conflito, o preço a pagar poderia ser amargo.

Da sua parte, a China tem muito a perder se as tensões se transformarem num conflito. A maior parte das suas importações de petróleo e matéria-prima atravessa aquela rota de navegação. E o país depende da boa vontade de seus vizinhos para levar a cabo a política externa promovida por Xi de ampliar as rotas comerciais chinesas.

O nacionalismo, porém, é a grande incógnita. É inconcebível que Xi, um estadista rígido e popular, não reaja de alguma forma. E ele ficará sob uma forte pressão para agir caso os ânimos da opinião pública se inflamem.

The Wall Street Journal.

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