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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Baluarte monumental

Tanques de guerra, canhões decorativos, olhares vigilantes de soldados camuflados: o QG do Exército é uma verdadeira cidade dentro de Brasília, com peculiaridades que pouca gente faz ideia

A rotina do Setor Militar Urbano (SMU) tem momento certo para começar e para terminar e, geralmente, não atrasa. Os mais de 12 mil militares envolvidos nos serviços do Exército Brasileiro dão vida ao setor que é mais autossuficiente do que a maioria das regiões do Distrito Federal. “O SMU fica localizado no centro de Brasília, numa região privilegiada e de fácil acesso, com linhas de ônibus exclusivas, vila militar, clubes, restaurantes, agências bancárias, hospital e segurança 24 horas”, enaltece a sargento Maria Rocha, que trabalha na Base Administrativa do Comando Militar do Planalto. Para a oficial, que vive a rotina do SMU há três anos, todos esses aspectos garantem uma boa qualidade de vida.


Apesar de estar na região central de Brasília, a atmosfera é bem diferente das asas do Plano Piloto. Até nos passos sincronizados dos soldados que se exercitam nas primeiras horas da manhã – tudo no SMU parece seguir uma ordem, uma disciplina. A vila que concentra os principais serviços do Exército brasileiro na capital federal tem em sua rotina valores tradicionais da vida militar. O conjunto arquitetônico do bairro impressiona pela imponência e originalidade. Com um verdadeiro acervo a céu aberto, e outras tantas obras de acesso restrito, o local é um primoroso representante da cultura brasiliense.

O filósofo Michel Foucault já dissera que o poder está associado a uma série de símbolos. E que esses elementos é que formam um sujeito ou uma entidade poderosa. Oscar Niemeyer parecia estar em plena sintonia com o pensamento do francês ao criar as principais obras do SMU.

 O Quartel-General do Exército (QGEx); o Monumento a Duque de Caxias, Concha Acústica; o Oratório do Soldado e a Praça dos Cristais compõem o Conjunto Cívico do Quartel General do Exército e é parada obrigatória para amantes da arquitetura ousada de Niemeyer. Por lá, também há a contribuição de outros catedráticos, como Burle Marx e Athos Bulcão.

Construído entre 1969 a 1973, no período mais ferrenho do regime militar, o QGEx consegue transmitir a mensagem de poder da instituição de maior influência na sociedade àquela época. A simbologia em torno dos elementos estéticos reforça uma ideia que é transmitida de maneira muito natural, até mesmo para quem não é militar.

Os blocos de concreto imensos alocados paralelamente na vertical parecem dizer o quão pequeno é um indivíduo diante de uma obra tão imponente. Os gestos padronizados e a exaltação de símbolos nacionais, automaticamente, ajustam o comportamento visitante no local.

Lá trabalham o comandante do Exército e seus órgãos de assistência direta. Em 117 mil m² de área construída, é abrigo de 34 organizações militares. Mas o QGEx é muito mais do que se pode ver: o subsolo esconde preciosidades, como um dos maiores painéis construídos por Athos Bulcão, de 516 m², que decora uma das gigantescas garagens subterrâneas do quartel. De uso restrito, ela dá acesso a um túnel de uso também privativo a autoridades. Essa galeria subterrânea liga o quartel ao teatro e à Concha Acústica.


Pelo extenso corredor branco já passaram vários presidentes, desde os da era militar até Dilma Rousseff. “A estrutura ainda é a da época da construção. O mármore do piso e os revestimentos continuam intactos”, diz o guia da reportagem, coronel Carlos Duarte Pontual de Lemos, enaltecendo a qualidade do material que foi utilizado no local.

O fim do corredor dá diretamente na coxia do Teatro Pedro Calmon, uma construção sóbria, que reserva nos detalhes a personalidade de seus projetistas. Em madeira e com curvas que lembram as edificações de concreto espalhadas pela cidade, “o teto foi pensado para a perfeição acústica das apresentações”, afirma o tenente Atair Mieres, gestor do espaço. Um grande painel de Athos Bulcão decora uma das paredes laterais. Há também bolhas que permitem que qualquer atividade possua tradução simultânea em diferentes línguas, desde quando o teatro foi inaugurado. Com 1.164 lugares, o espaço, hoje, é uma das principais alternativas para realização de espetáculos, depois do desfalque cultural que o fechamento do Teatro Nacional causou.

O monumento a Duque de Caxias, conhecido como Concha Acústica, é mais uma obra peculiar de Niemeyer. Inaugurado em 1973, é um palanque ao ar livre, com uma cobertura em forma de concha. Nela acontecem solenidades oficiais importantes e até concertos, a exemplo do apresentado pela Orquestra Sinfônica da Brasília, no último 7 de setembro. A composição entre a Concha Acústica e o Obelisco faz referência ao copo e à espada de Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro. Atrás da concha, está a entrada principal do quartel, que dá acesso ao salão Guararapes.

O espaço, que é a entrada de autoridades, conta com um conjunto de obras permanente, aberto para visitação ao público apenas de sexta a domingo. “Todo esse acervo conta um pouco da história de momentos emblemáticos do Exército do Brasil”, adianta o tenente Antonio Carlos Lorentz Ripe, guia do salão. “O nome do local se refere à Batalha dos Guararapes, que pôs fim à ocupação holandesa no Nordeste e é o marco inicial do Exército brasileiro”, ressalta o oficial.

Em frente à Concha Acústica está a Praça dos Cristais. Lá, é possível observar o requinte do trabalho do paisagista Burle Marx. Os cristais que dão nome à praça parecem emergir dos pequenos laguinhos, e o efeito, em um dia claro com nuvens, encandeia os visitantes, como a contadora Juliana Nascimento: “Essa praça é um daqueles tesouros escondidos em Brasília.

 Mesmo morando a vida inteira aqui, só descobri há alguns anos que ela existia. Daí me perguntei: ‘Como eu nunca vim a esse lugar antes?’ Depois da primeira visita, esse se tornou um dos meus lugares favoritos”, declara a brasiliense. Projetada por Roberto Burle Marx, o local é um jardim triangular de 102 mil m², que faz referência a cidade goiana de Cristalina. A ideia era descrever, por meio da obra, a riqueza existente na região central do Brasil.

Juliana considera que o fato de não ter muitos visitantes é um ponto a favor: “A praça é bem grande, então a sensação é de estar sempre meio vazia. Confesso que é essa paz e tranquilidade que me fazem voltar aqui mais vezes. É um lugar de contemplação da natureza e da arte de Burle Marx. Faço questão de trazer meus amigos de fora para conhecer”, diz.

De todos os lugares abertos à visitação, a tranquilidade de todo o Setor Militar atribui uma atmosfera de maior contemplação ao Oratório do Soldado. Talvez fosse essa mesmo intenção ao ser projetado. Observa-se uma contemplação silenciosa e impressionada em todas as pessoas que visitam o local. Ao olhar do lado de fora, a edificação lembra uma nave extraterrestre de filmes de ficção. Com pilastras que parecem suspender o prédio das águas do espelho d’água que o envolve, foi projetado pelo arquiteto carioca Milton Ramos e inaugurado em 1973. O prédio religioso completa o Conjunto Cívico do Quartel-General do Exército Brasileiro.


Correio Braziliense  

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