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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sem hierarquia, novo terrorismo impõe desafio ao Ocidente



Ataques de Orlando e Paris mostram que jihadistas estão conseguindo o que tentam há anos: propagar a ideologia, capitalizando sentimento de exclusão da sociedade, para levar a "guerra santa" ao dia a dia ocidental.

"Esmaguem o crânio deles com uma pedra; sangrem-nos com uma faca; atropelem com seus carros; atirem de um lugar bem alto; estrangulem-nos ou envenenem." Essas são as ações sugeridas pelo porta-voz do "Estado Islâmico", Abu Muhammad al-Adnani, numa mensagem de áudio aos simpatizantes do grupo, em setembro de 2015. Segundo ele, os "soldados" da organização terrorista devem atacar, sobretudo, os "infames e imundos franceses" – embora "infiéis" de outros Estados também sejam alvos legítimos.

Tanto em Orlando como em Paris, a mensagem emitida por Adnani encontrou solo fértil. Ambos os agressores revelaram-se adeptos do EI, ambos eram conhecidos pelos órgãos de segurança de seu respectivo país. E ambos colocam a Justiça diante da questão: como lidar com suspeitos de terrorismo? Como proceder com elementos que já têm histórico criminal ou que se manifestam como simpatizantes do EI?

Rede sem forma ou hierarquia

Outra questão ocupa mais ainda as autoridades de segurança: como identificar indivíduos dispostos a cometer atos de terror em nome do EI?

"A definição de uma rede é justamente a ausência de hierarquia ou estrutura formal", explica à DW o pesquisador do terrorismo Peter Neumann. "São pessoas que se conhecem entre si, pelo fato de terem estado juntas no exterior, por terem se encontrado nos círculos jihadistas, e cujo grau de relacionamento é ativado de caso para caso. Não existe uma estrutura formal."

Em diversos países ocidentais, sobretudo na França, essa falta de estruturas formais constitui o ponto forte do EI. Fica mais difícil identificar assim possíveis simpatizantes e militantes, do que numa organização constituída hierarquicamente. Essa forma é intencional.

Nizam, la tanzim – "um sistema, não uma organização" –, reza a hoje notória fórmula do jihadista sírio Abu Musab al-Suri, o teórico desse terrorismo que se prolifera. Ou seja: os jihadistas montam uma rede informal, um sistema com base em relações pessoais, sempre em mutação e de estrutura flexível. Pode-se filiar-se a ele ou abandoná-lo; acima de tudo, é possível agir independentemente e por iniciativa própria.

A estratégia de Musab al-Suri

Da'wat al-muqawamah al-islamiyyah al-'alamiyyah (Conclamação à resistência islâmica global) é como Musab al-Suri denominou o abrangente corpo de escritos em que apresentou sua teoria do jihad, a "guerra santa" islâmica. Ele contém uma parte ideológica e uma estratégica.

A ideologia visa demonizar os "cruzados judeo-americanos", que, segundo Suri, destruíram intencionalmente o mundo islâmico. Isso, afirma ele, ocorreu através da "disseminação de uma cultura da decadência, da depravação, do adultério e da imoralidade, da exibição, da nudez, da mistura dos sexos e de outras formas de corrupção social".

Contra isso é preciso se defender, numa guerra sem fronteiras, insta Abu Musab al-Suri. Os alvos são muitos, e das mais diferentes ordens: políticos e militares, a infraestrutura econômica, como aeroportos e portos, estações ferroviárias, pontes, cruzamentos de autoestradas, metrôs e locais turísticos. Podem-se igualmente atacar bases militares e centros de informática, mas também alvos "moles", como empresas de mídia e seus representantes. Tudo isso serve apenas à resistência, assegura o jihadista sírio.

Manual de instruções do terror

Essa resistência deve ser praticada com todo rigor: "O tipo de ofensiva capaz de desestabilizar os Estados e os governos é o assassinato em massa da população. Isso acontece quando se ataca grandes concentrações humanas, acarretando um máximo de perdas humanas."

Tal prática é fácil, prossegue Suri, pois os alvos adequados são numerosos. "Por exemplo, arenas esportivas lotadas, eventos sociais anuais, grandes exposições internacionais, feiras ao ar livre movimentadas, arranha-céus, edifícios com muitos ocupantes."

Presumivelmente nascido em 1958, Suri viveu vários anos na Europa. A ele é imputado um papel de liderança no planejamento dos atentados aos trens suburbanos em Madri, em março de 2004, resultando em 190 mortos e 2 mil feridos.

Os rastros do jihadista sírio se perderam alguns anos atrás, nas prisões do regime de Bashar al-Assad. Hoje, uma geração mais jovem dissemina seus objetivos, adaptados ao principal meio de comunicação contemporâneo, a internet.

Lugar na história para os párias

Um dos panfletos jihadistas mais populares da internet foi divulgado pelo francês nascido no Senegal Omar Diaby, aliás Omar Omsen. Seu vídeo em várias partes se chama 19 HH, um título que já deixa entrever uma tendência a visões de mundo totalitárias. "HH" significa "Histoire de l´Humanité", e o número se refere aos 19 autores dos atentados de setembro de 2001, em Nova York e Washington.

Nos diversos clipes, Omsen fala de uma suposta conspiração mundial contra o islamismo. "Eles podem modificar as coisas como queiram e canalizar as massas nas direções que lhes convenham [...] Em nome da assim chamada segurança, começou a propaganda contra o islã!" Considerado um dos principais recrutadores ao jihad na Síria, Omsen morreu nesse país em agosto de 2015.

Adnani, Suri e Omsen são três dos mais importantes recrutadores para o jihad global, uma guerra que cada vez mais visa os alvos fáceis do quotidiano ocidental. Nela podem também desempenhar um papel os excluídos pela sociedade – como agora em Orlando e Paris. Pequenos criminosos e neuróticos travam a "guerra santa" islâmica – e é justamente isso que torna tão difícil combatê-la.

DW - Deutsche Welle

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