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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Terrorismo à brasileira: o que há por trás das prisões


AMEAÇA Nível 4 - As forças de segurança simularam diversas situações de ataque terrorista durante os Jogos do Rio de Janeiro (YASUYOSHI CHIBA/AFP)

A prisão dos suspeitos de preparar atentados na Olimpíada é correta e necessária, mas o barulho excessivo amplia de maneira exagerada o medo e a insegurança

Robson Bonin e Eduardo Gonçalves

Estirado em um velho sofá azul, vestindo calças camufladas de combatente e com os cabelos desgrenhados, um jovem imberbe esforça-se para explicar a um interlocutor as suas convicções sobre algo que parece conhecer pouco, o Islã. Brasileiro, ele se confessa admirador de uma certa “doutrina do terror”. Explicando melhor, considera justificável que inocentes sejam assassinados em ataques suicidas para vingar a morte de muçulmanos. Ele sabe que está sendo filmado. “Fomos nós, muçulmanos, que invadimos o país deles?”, questiona. O diálogo não segue uma lógica cartesiana, mas fica claro que ele se refere ao atentado ocorrido na Flórida, em que 49 pessoas morreram num ataque terrorista a uma boate gay. “Mataram cinquenta lá. E os 10 000 do Afeganistão? Não tiro a razão dos caras”, diz. O rapaz sofre para organizar o raciocínio, enquanto pronuncia palavras arrastadas, balbucia coisas incompreensíveis, chegando a aparentar uma descompensação mental. Por fim, festeja o atentado em Nice, na França, que fez 84 mortos, “infiéis”, como ele os chama.

As cenas desse vídeo levaram a Polícia Federal a desencadear a operação antiterror da semana passada, a maior do gênero já vista no Brasil. Foram expedidos vinte mandados de busca e apreensão em dez estados. Onze homens foram presos e um ainda estava foragido até o fechamento desta edição de VEJA. Todos foram transferidos para o presídio de segurança máxima em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O rapaz que admira a “doutrina do terror” vinha sendo monitorado havia meses por agentes da Divisão Antiterrorismo. Ele e outros onze brasileiros participavam de grupos que juraram lealdade ao Estado Islâmico, discutiam estratégias de combate, tentavam aliciar pessoas. Eram só observados, até o momento em que um deles tentou comprar um fuzil AK-47 pela internet, outro recomendou que fizessem treinamento de tiro, um terceiro conclamou os colegas a se matricularem em cursos de artes marciais — e todos conversavam sobre um ataque durante os Jogos do Rio de Janeiro.

A suposta “célula brasileira do Estado Islâmico” vinha sendo monitorada pela Polícia Federal e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Os investigadores acompanhavam os passos do grupo pela internet, no Facebook, no Twitter e em aplicativos de troca de mensagens. A princípio, os “defensores da sharia”, código de leis seguido pelos muçulmanos radicais, não pareciam ameaçadores. Entre as mensagens captadas pela polícia estão discussões sobre se o grupo deveria ou não considerar a possibilidade de cometer um atentado no Brasil, já que, como disse um dos integrantes, o país não participa da coalizão que combate o Estado Islâmico (ao que outro participante retrucou que o Brasil não, mas alguns dos países que virão ao Rio para a Olimpíada sim). 

Em outro diálogo, um dos suspeitos afirma estar juntando dinheiro para “combater na Síria” e pergunta se alguém conhece um recrutador por lá. Nas mensagens, eles pronunciam palavras em árabe e trocam imagens de armas e vídeos que mostram execuções perpetradas pelos terroristas do EI. Também manifestam ódio aos xiitas — os membros do EI são muçulmanos sunitas. Os suspeitos presos na operação batizada de Hashtag são, na maioria, cidadãos de baixa renda que vivem na periferia das capitais.

Depois dos atentados em Orlando e Nice, e com a proximidade da Olim­píada, a polícia brasileira achou que esse bando de amadores não podia ser desprezado. Invocou a Lei Antiterror, recém-­aprovada, e pediu a prisão preventiva do grupo, decretada pelo juiz Marcos Josegrei da Silva, titular da 14ª Vara Federal de Curitiba. Deflagrada num momento de tensão global com a ameaça de ataques, a operação provocou grande repercussão na imprensa mundial.

A ação policial está absolutamente correta do ponto de vista preventivo, mas acabou escancarando o que poucos brasileiros sabem: a disputa renhida entre a Abin e a PF pelo protagonismo no combate ao terrorismo. A Abin e a PF não se entendem, embora devessem trabalhar em parceria. Neste caso, a Abin defendia a ideia de que a “célula terrorista” continuasse sendo monitorada, sem alarde, mantendo-se a estratégia adotada em grandes eventos. Para a Abin, publicidade gera imitação. Outros grupos podem querer suplantar a atenção e promover atos ainda mais sensacionais. Além disso, a publicidade excessiva pode provocar medo, até pânico, em setores da população. Na Copa do Mundo, em julho de 2014, a Abin foi informada sobre a possibilidade de um atentado no Maracanã, inclusive com o uso de drones. Discretamente, deteve os suspeitos, fez um cerco ao estádio, bloqueou o espaço aéreo, e ninguém percebeu nada de anormal. É o que os serviços secretos chamam de “operação invisível”.

A PF acha o contrário e, na quinta-feira passada, tomou o caminho oposto. Produziu um espetáculo midiático de alcance internacional. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, que chefia o Órgão ao qual está subordinado a PF, convocou uma entrevista coletiva para anunciar segundo seus assessores, a desarticulação de membros de "uma célula terrorista do Estado Islâmico no Brasil", um exagero imperdoável. Depois, o ministro esclareceu que se tratava de medida preventiva e que o grupo era "absolutamente amador".

Informado da ação minutos antes, o presidente interino Michel Temer - homem dado à discrição e aos bastidores, não gostou da divulgação barulhenta, mas achou correta a decisão de prender o grupo. O juiz Marcos Josegrei percebeu o excesso de espetáculo e explicou-se: "É importante deixar claro que nem tudo que uma pessoa preconiza no meio virtual necessariamente vai realizar no mundo real. Sob o ponto de vista legal, estão absolutamente justificadas a prisão e as buscas e apreensões".

Rusgas entre o serviço secreto e a polida são corriqueiras. Nos Estados Unidos, FBI e CIA vivem se estranhando. A CIA, equivalente à Abin, coleta informações no exterior e produz relatórios que normalmente não trazem nomes. O FBI, a polícia federal americana, despreza esse tipo de trabalho. É essa mesma atmosfera que marca as relações entre a PF e a Abin. A consequência imediata é uma disputa pelo protagonismo, que acaba expondo ambos os lados. O estardalhaço das prisões da semana passada contrasta com episódios recentes, como a deportação do professor franco-argelino Adlène Hicheur, condenado por terrorismo na França. Ele morava no Rio. Sua expulsão do país foi divulgada, mas sem alarde.

No ano passado, a falta de comunicação entre a PF e a Abin deu origem a uma cena bizarra. Em Brasília, agentes federais cercaram um prédio para prender um terrorista. 

Convertido ao islamismo, o advogado Marcelo Bulhões dos Santos ostentava um currículo preocupante. Já havia trabalhado na Casa Civil, durante o governo Dilma, e também figurara no quadro de servidores da própria PF. Depois do cerco, promovido com todo o aparato próprio dessas operações, a PF descobriu que Bulhões era um informante da Abin. Teve de soltá-lo e pedir desculpas.

Recentemente, a informação de que um membro brasileiro do Estado Islâmico estaria preparando um atentado contra a delegação francesa nos Jogos do Rio correu mundo. 

Revelada por um deputado francês, a denúncia virou piada. O suposto terrorista, o vigilante David Leandro Freitas, era, na verdade, um desses "galãs de rodoviária". Usava a internet para fazer conquistas amorosas, como descobriu a Abin. Topou com uma garota da Dinamarca que, para seu azar, era simpatizante do Estado Islâmico. Querendo encantá-la, Freitas inventou que planejava um ataque contra os franceses. Não queria explodir ninguém, apenas seduzir uma garota dinamarquesa.

Em um relatório divulgado por VEJA em junho passado, a Abin classificava como 4 o nível de ameaça de um atentado durante os Jogos, numa escala que vai de 1 a 5. A maior ameaça, de acordo com o documento, são os chamados "lobos solitários", nome dado a terroristas que agem por conta própria, sem ligações orgânicas como comando do terror. 

Para a PF, a divulgação de relatórios assim é um desserviço que a Abin presta ao país, porque ajudaria a glamorizar os criminosos. A PF recomenda que o vocabulário seja alterado em favor de nomes antipáticos: "lobos" devem virar "ratos" e "Estado Islâmico" deve virar "grupo terrorista".

Há um clima de tensão mundial em torno do terrorismo, que obviamente precisa deixar as autoridades brasileiras em estado de alerta durante a Olimpíada. Na sexta-feira, atiradores espalharam terror em Munique, na Alemanha, disparando contra pessoas num shopping e em outros dois lugares. Algumas testemunhas relataram que os atiradores gritavam expressões xenófobas, como "estrangeiros de m...", outros que exclamavam "Deus é grande", em árabe. O ataque deixou pelo menos oito mortos. Até a noite de sexta, portanto, não se sabia se era mesmo um atentado islâmico. Sempre pode ser. Por isso, na dúvida, o melhor é prevenir. Se o Brasil fizer a prevenção, com um pouquinho menos de fanfarra, todos ganharão.

Veja 
http://veja.abril.com.br/brasil/terrorismo-a-brasileira-o-que-ha-por-tras-das-prisoes/


Um comentário:

  1. Esse artigo tem mais elucubrações e mentiras, além de muito amadorismo, do que informações verdadeiras. Lógica cartesiana para entender abordar ideologia, PF e Abin se enfrentando, e atiradores em Munique. É a velha Veja.

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