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sábado, 6 de maio de 2017

Brasil diz que não mandaria tropas para a Síria sem mandato da ONU



Igor Gielow

O governo brasileiro informou que dificilmente enviará tropas para a Síria, conforme a Rússia aventou, porque só participa de missões de paz sob a égide do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). E não há indicação de que tal mandato ocorrerá agora, até porque dependeria da aprovação de rivais de Moscou no conselho: EUA, França e Reino Unido.

"Nada foi pedido oficialmente ao Brasil. Provavelmente nada será pedido, porque todos sabem que o Brasil só participa de missões do Conselho de Segurança", disse o ministro Raul Jungmann (Defesa). Ele esteve na semana passada em Moscou, participando de um seminário e encontros com autoridades, e afirma que nada disso foi discutido.

Moscou, que interveio na guerra civil síria em 2015 e conseguiu evitar a queda do regime aliado do ditador Bashar al-Assad, propôs a criação de quatro zonas de segurança no território do país árabe.

Segundo informou o Kremlin, as zonas poderão garantir a assistência a populações civis e ajudarão a "de-escalar" o conflito que já matou mais de 300 mil pessoas desde 2011. Mas o governo russo também disse que os locais configurarão zonas de exclusão aérea para aeronaves ocidentais envolvidas em ataques ao grupo terrorista Estado Islâmico, que domina uma boa porção da Síria.

A Rússia afirma que tal plano, que gerou perplexidade entre comentaristas ocidentais, teve o aval do governo de Donald Trump.

O Brasil entrou na discussão como um elemento de distração. Para evitar resistências do Ocidente à proposta, costurada em conjunto com o Irã e a Turquia e apresentada na quarta (4), o governo de Vladimir Putin disse que a segurança nos locais poderia ser feita por países emergentes como o Brasil e a Índia, parceiras de Moscou no bloco Brics, e um país árabe como o Egito —cujo regime vem se aproximando dos russos.

O temor ocidental é de que, na prática, as regiões sob tutela internacional se tornem protetorados da Rússia e das duas potências locais. A situação se complica ainda mais porque o Irã ainda é visto como um regime suspeito pelo Ocidente e adversário pelos aliados árabes do Golfo Pérsico, e a Turquia é membro da Otan (aliança militar do Ocidente), mas vem cada vez mais se distanciando da Europa e dos EUA.

Prova disso foi o avanço nas negociações, por parte de Ancara, para a compra de sistemas de defesa aérea S-400 da Rússia. Para poder operar as baterias de mísseis e ter acesso à sua tecnologia, os turcos deverão retirar esse elemento do sistema integrado de defesa da Otan, que utiliza equipamentos e códigos-fontes de software comuns aos outros membros da aliança.

Ou seja, a Turquia teria uma defesa própria, não interligada à dos parceiros ocidentais. A exemplo do que fez a França durante boa parte de sua história de relação com a Otan, o governo de Racip Erdogan buscaria uma posição de independência. De quebra, se aproximaria dos rivais número um da Europa, os russos.

O governo brasileiro já se colocou à disposição para liderar uma missão de paz da ONU quando acabar seu mandato no Haiti, no fim deste ano. Até aqui, contudo, o Líbano ou algum país da África Ocidental com presença de tropas internacionais eram os destinos mais cotados.

Folha de S.Paulo

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