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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Após 13 anos, Brasil deixa o Haiti



Na quinta-feira, cerimônia em Porto Príncipe encerrará as atividades das tropas chefiadas pelo País

Luciana Garbin, O Estado de S.Paulo

Chefiada há 13 anos pelo Brasil, a única missão de paz da ONU nas Américas começou com um telefonema. Em 2004, o chefe do Comando Sul dos EUA, general James Hill, ligou para o também general Francisco Roberto de Albuquerque, então chefe do Exército brasileiro. O americano queria saber se o Brasil tinha interesse em assumir o comando de uma missão de paz no Haiti. No país mais pobre do continente, já estavam marines americanos, tropas francesas e chilenas e helicópteros canadenses.

Ao lado do general Albuquerque em Brasília, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira ouviu a conversa. “Eu chefiava o Centro de Comunicação Social do Exército e estava com o general Albuquerque, quando ele recebeu o telefonema. Indiscretamente, acabei ouvindo e, quando ele desligou, avisei: ‘General, sou voluntário’. Na época, tinha 30 e poucos anos de Forças Armadas, mas nunca tinha ido para uma operação real. Era como médico sem doente”, lembra o general Augusto Heleno.

Poucas semanas depois, ele se tornaria comandante da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), que na próxima quinta-feira encerrará suas ações operacionais com uma cerimônia em Porto Príncipe. A partir daí, a responsabilidade pelo controle do país passará à Polícia Nacional do Haiti

Após ter seu nome anunciado no Alto Comando do Exército, o general foi indicado para o Ministério da Defesa e daí para a ONU. Enquanto isso, começava no Congresso a discussão se valia ou não enviar tropas para o Haiti. Encarada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva como chance de mostrar a capacidade do Brasil para se envolver em temas internacionais importantes, a participação do País na Minustah também ajudou a embalar a expectativa por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, que acabou não se concretizando.

“Meu tempo de preparação foi muito curto”, continua o general. “No início, foi penoso porque se conhecia pouco sobre a situação do Haiti. Era um país completamente estranho ao nosso dia a dia. Comecei a estudá-lo e a assistir à TV francesa, que fazia uma cobertura razoável.” Após uma sabatina na sede da ONU, em Nova York, ele voltou ao Brasil, arrumou as coisas e, uma semana depois, embarcou num voo da American Airlines. Chegou a Porto Príncipe em 29 de maio de 2004. “Ainda no avião, lembro que em nenhum momento pensei que estava no Caribe. Via áreas devastadas em termos de florestas, comunidades gigantescas e Porto Príncipe como uma cidade cinza. Mas já estava mais ou menos preparado: ninguém põe missão de paz num lugar sem problema.”

Aprovada no início para durar poucos meses, a participação brasileira na Minustah teve sua duração ampliada e suas estatísticas e ações infladas. Embora a segurança e a estabilização do Haiti fossem o mote, as Forças Armadas se dedicaram a várias ações sociais e de engenharia no país, incluindo atendimentos médico-odontológicos, distribuição de alimentos, pavimentação de ruas e abertura de poços.

Nos 13 anos de operações, 37.008 militares participaram da missão, a maioria do Exército. Um número bem maior que o do primeiro efetivo enviado em 2004, que somava 1,2 mil homens saídos da região gaúcha de São Leopoldo, onde, desde meados da década de 90, o Exército mantinha unidade preparada para atuar como tropa de paz, com integrantes treinados em Angola, Moçambique e Timor Leste.

O subtenente Fabiano Coradini Segatto, de 43 anos, foi um dos que participaram dessa primeira leva militar brasileira no Haiti. Desde 2002 no 19.º Batalhão de Infantaria Motorizado, ele passou seis meses na missão em 2004 e voltou novamente em 2015. “Como pessoa, essas experiências me fizeram amadurecer. Como militar, participar de uma missão de paz é uma forma de pôr em prática o que aprendemos nos treinamentos.”

É justamente a possibilidade de testar líderes e treinar milhares de militares em situação real que serve como justificativa para o montante de recursos gastos no Haiti – chamados no governo de investimentos. Entre 2004 e dezembro de 2016, o Brasil desembolsou cerca de R$ 2,5 bilhões com a Minustah, segundo dados disponíveis no Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal.

Do total, R$ 930 milhões foram reembolsados pela ONU, de acordo com o Ministério da Defesa. As despesas variaram de ano para ano. Em 2004, foram cerca de R$ 148 milhões (com R$ 14,9 milhões reembolsados). Em 2010, ano em que um forte terremoto matou cerca de 300 mil pessoas no país, o montante atingiu R$ 673,8 milhões – a ONU devolveu R$ 159,2 milhões.

Militares que participaram da missão também destacam que o País ganhou pontos nas Nações Unidas pelo trabalho realizado. “O Brasil firmou um conceito pela capacidade de adaptação e de viver com alma uma missão numa realidade muito dura. Nunca vi pobreza como no Haiti. Até soldados de comunidades do Rio de Janeiro se chocavam com o que encontraram”, lembra o general Augusto Heleno. “Mas os brasileiros têm uma facilidade de relacionamento que ajuda muito. É o que os haitianos chamam de bon bagay, algo como boa gente, em crioulo.”

Depois de arrumar as mochilas e acondicionar em contêineres os blindados, armamentos e objetos que serão trazidos de volta, os militares de Rio, São Paulo e Caçapava, que formam o último contingente no Caribe, embarcarão para casa. As viagens serão feitas entre 10 e 17 de setembro. Em 15 de outubro, a base usada pelo País será oficialmente entregue à ONU.

Dos 21 contingentes de diferentes nacionalidades que chegaram a ser chefiados pelo Brasil, apenas dois permaneciam no Haiti até quinta-feira: o do Paraguai e o de Bangladesh. “As tropas que permanecerem (a partir de sexta-feira) estarão amparadas para usar a força, caso necessário, apenas para autodefesa e segurança das instalações da base e dos materiais a serem repatriados”, informou o Exército.

A Minustah é a quinta missão de paz no Haiti desde 1993. Para evitar que o fim dela mergulhe o país novamente na instabilidade, a ONU deve instituir uma nova missão por pelo menos mais seis meses. Com ajuda do Brasil, também está sendo feito um manual sobre emprego de tropas de engenharia.

“Nós nos tornamos referência”, diz o coronel de Engenharia do Exército Mário Pedroza da Silveira Pinheiro, que permaneceu no Haiti de maio de 2004 a maio de 2005. “Acho que a missão já se esgotou, cumpriu todas suas etapas”, afirma o general Heleno. Se ele se arrepende de ter se oferecido para chefiar as tropas em 2004? “De maneira nenhuma. Eu seria voluntário hoje para qualquer outra missão.”

DEPOIMENTOS

UPP Carioca. "A pacificação de Bel Air foi uma das prioridades imediatas. Era uma comunidade de casas velhas e deterioradas que antigamente tinha sido um bairro de classe média e ficava ao lado da área do palácio presidencial e de vários ministérios. A cada tiro que saía de lá, ligava uma autoridade para pedir ajuda. E tinha tiroteio de dois em dois dias. Um dia, um comandante do destacamento brasileiro veio com a ideia de pôr uma companhia de infantaria num quartel abandonado dentro de Bel Air. O prédio estava todo arrebentado, mas conseguiram recuperá-lo e instalaram ali um posto. Isso mudou totalmente nossa condição, pois passamos a atuar de cima para baixo e muito mais rápido. Quando tinha algum problema, já estávamos lá dentro. Depois, ativamos postos de saúde, pusemos médicos brasileiros lá dentro, melhoramos o colégio. E fomos ganhando a população. Haitianos passaram a ir de madrugada passar informações sobre bandidos. Isso ajudou muito na pacificação e foi o embrião das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Rio de Janeiro.” GENERAL AUGUSTO HELENO PEREIRA

Macarrão instantâneo. “Como não sabia o que ia encontrar no Haiti, levei muita sopa em pó e macarrão instantâneo. Durante muito tempo, comi Miojo com parmesão que cozinhava num fogão de duas bocas de um posto de comando que caiu no terremoto. Depois, me falaram de restaurantes e ia quando a situação estava calma. Sempre sem segurança. A melhor propaganda da missão era o comandante andar sem segurança. Fiz muito isso.” GENERAL AUGUSTO HELENO PEREIRA

Fogueiras. “Em Cité Soleil não se entrava sem carro de combate. Era um bairro tomado por gangues, com toque de recolher, onde éramos recebidos a tiros. As pessoas faziam fogueiras para impedir a circulação dos blindados e eles ficavam com a pintura chamuscada ao passar sobre o fogo. Fazíamos várias reuniões com líderes comunitários. Quando passamos o trabalho ao contingente seguinte, já havia patrulhamento na comunidade.” SUBTENENTE FABIANO SEGATTO

Lasanha. “Estávamos num evento com integrantes do contingente da Jordânia e o comandante mandou fazer uma lasanha só com queijo, porque muçulmanos não comem carne de porco. Mas o cozinheiro achou muito sem graça e quis incrementar com presunto. Apesar do pedido de desculpas, os jordanianos se ofenderam, acharam um constrangimento e foram embora. O cozinheiro foi punido, tomou cadeia.” CORONEL MÁRIO PEDROZA PINHEIRO

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