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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

De Hitler a Stálin: os cientistas alemães que ajudaram a construir a bomba atômica soviética


Depois que a Alemanha nazista foi derrotada na Segunda Guerra Mundial, tanto os EUA como a URSS tentaram reunir mentes científicas brilhantes para desenvolver armas nucleares – e ambos tiveram sucesso. O que poucos sabem, porém, é que a contribuição alemã para a versão soviética do Projeto Manhattan foi significativa.




Os soldados soviéticos teriam ficado surpresos quando, em 1945, se aproximaram da casa do barão Manfred von Ardenne, nos entornos de Berlim. De acordo com uma testemunha ocular, na entrada da “meio mansão, meio castelo” havia uma placa em russo na qual lia-se “Dobro pojalovat!” (Bem-vindo, em português). “Ardenne entendeu bem como o vento soprava agora”, brincaram os oficiais na ocasião.

Ardenne, que desenvolveu o primeiro amplificador de banda larga, havia contribuído para o estabelecimento de um sistema de rádio estável na Alemanha de Hitler e também trabalhado no projeto nuclear nazista. Mas, por estar na zona de ocupação soviética, tinha então que trabalhar para Moscou – assim como muitos colegas.

Cérebros como troféus

Na primavera de 1945, era evidente que a Segunda Guerra Mundial estava com os dias contados, e tanto o Ocidente quanto a URSS já se preparavam para a Guerra Fria. Ambos os lados planejavam desenvolver armas novas e modernas, e, para avançar essas tecnologias próprias, pretendiam contar com especialistas da Alemanha nazista.

Os EUA obrigaram Wernher von Braun e Werner Heisenberg, dois cientistas-chave do projeto nuclear alemão, a colaborar com o país. Mas Moscou também capturou alguns especialistas proeminentes. “Não se deve subestimar a contribuição alemã para o desenvolvimento da indústria nuclear soviética; foi significativa”, descreveu o jornalista Vladímir Gubarev, em seu livro sobre o programa nuclear soviético.

O barão e os comunistas



Um desses cientistas alemães, Manfred von Ardenne, teve uma vida extraordinária. Nascido em uma família nobre, o barão tornou-se um inventor extremamente bem-sucedido, com cerca de 600 patentes, incluindo o primeiro microscópio eletrônico de varredura de alta resolução. Ardenne, no entanto, estava condenado a trabalhar com três líderes totalitários: Adolf Hitler, Iossef Stálin e Erich Honecker.

Depois que os soviéticos chegaram a Berlim, o oficial de Stálin encarregado do programa atômico soviético, Lavrenti Beria, fez uma oferta irrecusável a Ardenne: largar a eletrônica e trabalhar na bomba atômica soviética.

De Berlin a Sukhumi

Ardenne pediu permissão para se concentrar no desenvolvimento do processo de separação de isótopos para a obtenção de explosivos nucleares, como o urânio-235 (e não na bomba em si). Beria concordou. Mais tarde, o cientista alemão descreveu seu papel no programa nuclear soviético como “o feito mais importante ao qual a fortuna e os acontecimentos do pós-guerra me conduziram”.

Não que Ardenne não estivesse familiarizado com o urânio.

“Durante a Segunda Guerra Mundial, os prisioneiros construíram para Ardenne um cíclotron e uma centrífuga de urânio, que teria, criado material para a bomba nuclear do Führer”, escreveu Vadim Gorelik em um artigo para o jornal “Neue Zeiten”.

Mas a Alemanha perdera a guerra, e agora Ardenne, que teve seu laboratório evacuado, trabalhava em Sukhumi (atual Abecásia) com a divisão de isótopos com uma equipe composta por mais de 100 pessoas.

O trabalho de Ardenne foi bem sucedido, e o cientista acabou sendo decorado com o Prêmio Stálin em 1947 e 1953. Em 1955, Ardenne voltou para a Alemanha Oriental, onde viveu por mais 42 anos, fazendo importantes pesquisas em física e medicina.

Herói do trabalho socialista

Ardenne não foi o único proeminente cientista alemão “convidado” a trabalhar no programa nuclear soviético. Houve também o físico Gustav Hertz, que ganhou o Prêmio Nobel; o físico Max Volmer, que mais tarde comandou a Academia de Ciências da Alemanha Oriental; e muitos outros, chegando a cerca de 300 no total.

Nikolaus Riehl, porém, teve possivelmente o destino mais interessante de todos eles. Este físico nascido em São Petersburgo, em 1901, se mudou para a Alemanha na década de 1920, e vinte anos depois foi forçado a retornar. Seus colegas soviéticos o chamavam de “Nikolai Vassiliévitch” por causa de suas raízes russas.

“Tanto o serviço secreto americano como o soviético foram atrás de Riehl depois da guerra... Tivemos sorte – e ele trabalhou na URSS”, relembrou Vladímir Gubarev.

Na fábrica Elektrostal (na região de Moscou), Riehl, junto com outros cientistas, conseguiu criar urânio metálico necessário para fazer uma bomba e recebeu o título de Herói do Trabalho Socialista – o único cientista alemão a conquistar tal honra.

“Nikolaus Riehl adorava usar sua medalha e a demonstrava sempre que podia”, escreveu Gubarev. “Ele deu todo o dinheiro que recebeu para os prisioneiros de guerra alemães que trabalhavam na Elektrostal, e eles se lembraram disso ainda mais tarde, como atestam suas memórias”, acrescentou o jornalista.

Em 1949, a URSS tinha sua própria bomba nuclear e, nos anos 1950, depois que o trabalho dos cientistas alemães foi concluído, a maioria partiu para a Alemanha Oriental. Alguns, como Riehl, até conseguiram desertar para a Alemanha Ocidental, deixando para trás o capítulo socialista em suas vidas.

Relembre também a história do tenente-coronel Stanislav Petrov, conhecido por salvar a humanidade ao decidir lançar um ataque nuclear contra os EUA após um alarme falso.

Russia Beyond

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