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sábado, 25 de setembro de 2021

A Austrália e o futuro da deterrência contra a China

Mathieu Duchâtel

Diretor do Programa Asiático

Para a indústria de defesa da França, o “negócio do século” foi o programa australiano para a obtenção de uma versão de propulsão convencional do SSN francês classe “Barracuda”, o primeiro dos quais entrou em serviço em novembro de 2020. A proposta do naval Group buscava atender às necessidades específicas definidas pelo governo australiano e pela base da indústria de defesa daquele país, num acordo que envolvia significativas transferências de tecnologias. Conforme declarou o primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull, “uma das vantagens da parceria com a França é que, caso a Austrália no futuro decida adotar propulsão nuclear, já teria um parceiro, o Naval Group, com experiência em submarinos nucleares, e casco já projetado para acomodar propulsão nuclear”.

A Austrália finalmente decidiu adquirir “pelo menos oito SSN”, mas sem a participação da França, nem do Naval Group, e até mesmo sem considerar a transformação do seu “Barracuda” para propulsão nuclear, como visualizado por Turnbull. Quando a Austrália poderá desdobrar um SSN no mar da China, como faz a França em fevereiro, ao enviar o SSN Émeraud para aquelas águas? É impossível dizer. No momento, a Austrália tem apenas um acordo político com os EUA e o Reino Unido, estruturado dentro da expandida parceria de segurança AUKUS (Estados UnidosAustrália e Reino Unido), anunciada em 15 de setembro. Dentro de um período de consultas que perdurará por 18 meses, os três lados devem chegar a um acordo técnico sobre o desempenho específico do SSN, junto com um plano industrial detalhando a divisão do trabalho e a natureza das transferências de tecnologia.

A visão australiana para o programa do “Barracuda” convencional era defender seus territórios marítimos e proteger as rotas setentrionais de acesso ao continente. Ao adquirir SSN, o governo australiano está claramente expressando sua intenção de operar longe da costa. Consequentemente, a marinha australiana vai rever suas prioridades, voltando-se para cenários de projeção poder no Mar do Sul da China e no Estreito de Taiwan, com a ambição de influenciar os futuros cálculos estratégicos da China. Em outras palavras: ao adquirir SSN, a Marinha australiana é colocada no centro de uma nova postura de deterrência que os EUA estão estabelecendo na região dos oceanos Índico-Pacífico.

Um estudo do Center for Strategic and Budgetary Assessments mostrou que um submarino diesel-elétrico sediado em Perth poderia operar apenas por onze dias no mar do Sul da China, enquanto um SSN pode lá permanecer por mais de dois meses. Quando se considera áreas ao Norte de Taiwan e no Mar Oriental da China, a diferença de capacidade é ainda mais gritante: essa região estaria simplesmente fora do alcance de um submarino convencional operando a partir de Perth, enquanto um nuclear poderia operar por mais de 70 dias.

Mesmo considerando que esses cálculos foram feitos em 2013 e que o que a Austrália objetivava era um submarino convencional com desempenho o mais próximo possível de um nuclear, a verdade é que esse salto de desempenho em relação a outros submarinos convencionais não transformava o navio m um SSN.

Segundo a perspectiva americana, os EUA firmaram um acordo assegurando o alinhamento estratégico da Austrália sem, até agora, conceder tanta transferência de tecnologia quando o programa francês; O interesse dos EUA deve ser entendido segundo uma lógica puramente de equilíbrio militar. Uma Marinha australiana equipada com SSN afetaria o equilíbrio de forças navais chinesas/americanas no Leste da Ásia, seja em cenários de épocas de paz ou de conflito.

Deve-se esperar operações contra navios de superfície e submarinos chineses, explorando os pontos fracos das tecnologias de guerra antissubmarino da China. Graças à sua velocidade, os SSNs terão também uma função de escolta durante desdobramentos da esquadra, protegendo os navios de superfície contra várias ameaças. Em terceiro lugar, deve ser esperada uma capacidade superior de ataque profundo contra a infraestrutura militar chinesa. A Marinha australiana acabou de anunciar a aquisição de mísseis Tomahawk para sua frota de superfície. A escolha do Tomahawk parece lógica para seus futuros SSNs, bom base na classe “Los Angeles” da USN, que tem 12 tubos de lançamento vertical.

E, finalmente, os SSN representam a defesa clássica contra submarinos nucleares lançadores de mísseis (SSBN). Se os SSN australianos entrarem em serviço no cenário de uma prolongada Guerra Fria Sino-Americana nos anos 2030 e 2040, não é impossível imaginar seu desdobramento para rastrear SSBNs chineses. Num cenário de guerra, uma capacidade australiana de neutralizar SSBN chineses afetaria a avaliação de riscos e de opções de escalada tanto dos EUA quanto da China.

As consequências da decisão australiana são claras. A futura Marinha australiana está sendo construída para se encaixar no movimento estratégico americano para se contrapor à China, num ambiente asiático em que o controle marítimo e a superioridade aérea não estão mais garantidas para os EUA. Durante a crise de 1995-1996, a administração Clinton enviou dois NAe para o Estreito de Taiwan. Isso foi feito em retaliação ao lançamento de mísseis balísticos chineses próximos ao litoral de Taiwan, no contexto das primeiras eleições presidenciais realizadas naquela ilha. Hoje em dia, uma projeção de poder dessa escala não mais seria possível seu o risco de perdas significativas.

O desafio dos EUA é convencer a China que não será possível obter ganhos políticos através de meios militares. A capacidade de infligir perdas consideráveis aos chineses se torna, então, a linha mestra dará os desdobramentos dos EUA e seus aliados na região do Índico-Pacífico. Se houver um risco real contra a própria sobrevivência de sua Marinha, a China arriscará uma invasão de Taiwan?

Tradução e Adaptação do Texto: Mário Roberto Vaz Carneiro

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