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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Entrevista com Giovanni Luisi, Vice-Presidente Comercial e Gerente de Vendas do Consórcio Iveco-Oto Melara

Por Ricardo Pereira Azevedo
Jornalista e Fotógrafo

Editor-Chefe do Site Assuntos Militares



O Assuntos Militares entrevistou Giovanni LUISI, Giovanni Luisi, Vice-Presidente Comercial e Gerente de Vendas do Consórcio, IVECO – OTO MELARA S.c. a r.l, sobre o possível fornecimento de blindados sobre rodas Centauros II ao Exército Brasileiro.



Assuntos Militares
- O Sr. poderia comentar sobre qual a filosofia de projeto que levou ao desenvolvimento da primeira variante do Centauro, e quais foram os requisitos que nortearam a versão atual, o Centauro II?


Giovanni Luisi -
Os Requisitos Operacionais para um Centauro 105 mm derivam da situação geopolítica italiana da década de 1980, a ameaça da Guerra Fria. A Itália faz fronteira com países do Pacto de Varsóvia, com mais de 1.300 km de litoral em frente a ex-Iugoslávia.

Era necessário desenvolver um Sistema de Canhão Móvel com notável letalidade e mobilidade, tanto operacional quanto tática, em todo tipo de terreno, para responder aos ataques de forças de desembarque, e capaz de cruzar o país de Norte a Sul o mais rápido possível. O Centauro foi concebido como um sistema de arma multiuso letal capaz de realizar emboscadas, reconhecimento em força e dissuasão, sendo capaz de identificar, interceptar e destruir Carros de Combate Pesados (MBT), bem como engajar e destruir alvos menores, como os veículos blindados de transporte de pessoal em serviço com o Pacto de Varsóvia.

O objetivo do programa de desenvolvimento era projetar um Veículo de Combate que, em comparação com um CC pesado, tivesse que garantir o seguinte desempenho:

• maior mobilidade estratégica;

• maior mobilidade viária, sem danos ao pavimento;
• mobilidade fora de estrada;

• mesmo poder de fogo;

• excelente capacidade de sobrevivência;

• custo do ciclo de vida reduzido; e

• maior velocidade de traslado em longa distância e maior autonomia.


O CIO (Consórcio Iveco - Oto Melara) foi o primeiro no mundo a conceber um Sistema Móvel 8x8 com Canhão de Alta Pressão, resultando numa viatura com as seguintes características principais:

• projeto sobre rodas, 8x8;
• canhão equivalente ao L7 de 105 mm, usando a mesma munição padrão da OTAN empregada pelo CC Leopard 1;

• capacidade de visão e tiro diurno/noturno, no mesmo nível que os CC de última geração;

• boa proteção e conforto da equipagem;
• operação totalmente segura para em ambiente QBN;

• elevada mobilidade estratégica e fora de estrada; e

• ótima proteção balística e contra minas.


O poder de fogo do Centauro era o mesmo de um CC pesado, com um canhão de 105mm instalado na torre. A proteção, obviamente, não era igual, devido ao peso menor. A filosofia era “atirar e escapar”, o que era possível graças ao uso de rodas e à excelente velocidade.




Assuntos Militares
- Até que ponto o emprego do Centauro B1 em situações reais de combate influenciou o projeto do Centauro II?

Giovanni Luisi - O desenvolvimento do Centauro II é baseado no conhecimento e experiência do Centauro existente em serviço com vários Exércitos. É o resultado de um desenvolvimento e evolução ininterruptos, com feedback contínuo do campo iniciado em 1990. O Centauro II representa uma nova etapa na evolução dos célebres veículos blindados Centauro 105 e 120 mm. Ele foi desenvolvido levando em consideração o feedback tecnológico e, em particular, o feedback proveniente dos vários teatros operacionais onde o blindado foi usado em condições ambientais extremas, bem como as mudanças nos requisitos militares com relação a emprego futuro.

As principais diferenças/melhorias do Centauro II em relação ao Centauro são:

• alta mobilidade: a viatura utiliza um novo motor V8 Iveco, com potência de 720cv, e nova caixa de câmbio e transmissão aprimorada, capaz de gerenciar o aumento de potência;

• elevada proteção: no que diz respeito à proteção balística, os níveis de proteção são significativamente mais elevados do que no passado, com um casco e torre totalmente reprojetados, soluções balísticas e técnicas adicionais, testadas para o padrão AEP 55, capazes de lidar com ameaças como minas, Artefatos Explosivos Improvisados (IED) e munições cinéticas de última geração. A segurança da equipagem, já otimizada no Centauro 105/120, também foi ampliada, com particionamento do armazenamento de munição de pronto emprego e de outros materiais dentro do casco, além de proteção QBN, sistemas de combate a incêndio e antiexplosão no estado da arte.
• elevado poder de fogo: canhão 120mm/45 de nova geração mm com carregamento semiautomático, capaz de disparar munição programável, novo sistema de visão do atirador e novo visor panorâmico, ambos estabilizados, computador balístico digital com rastreamento automático. O sistema mantém a capacidade de integrar armamento de 120 mm ou 105 mm, de acordo com a necessidade do usuário final.

• alta conectividade: emprego de tecnologias de ponta da Leonardo no campo das comunicações centradas em rede (com o inovador Rádio Definido por Software de quatro canais) e de Comando e Controle.




Assuntos Militares
- Mais especificamente, em que teatros o Exército italiano já empregou operacionalmente o Centauro B1?


Giovanni Luisi -
O Centauro foi empregado em várias operações militares internacionais: a primeira em 1993 na Somália, depois no Líbano, no Kosovo e em operações de manutenção da paz no Iraque e Afeganistão, com excelentes resultados, de acordo com a missão específica.

O Centauro demonstrou ser uma plataforma versátil e confiável nos mais diversos ambientes e cenários operacionais, que vão desde a guerra assimétrica e híbrida até cenários de alta intensidade.


Assuntos Militares
- Em quais outros países, além da Itália, o Centauro B1 está sendo utilizado?


Giovanni Luisi -
O Centauro, vendido ao Exército italiano em 400 unidades, está em serviço na Espanha (onde o sistema foi produzido localmente por empresas espanholas pertencentes à Leonardo e Iveco com a coordenação do COI), na Jordânia e no Sultanato de Omã, na versão com 120mm.




Assuntos Militares
- Quais outras variantes existem do B1? Também serão desenvolvidas outras variantes do Centauro II e, caso positivo, quais?


Giovanni Luisi -
A partir do Centauro, o CIO desenvolveu uma família completa de veículos denominada Freccia pelo Exército Italiano, composto por Viaturas Blindadas de Combate de Fuzileiros, de Transporte de Pessoal, Postos de Comando, Porta-morteiros e de Socorro.

A mesma abordagem pode ser aplicada também para o Centauro II, onde o novo desenvolvimento se beneficiará da comunalidade dos principais subsistemas do Centauro II.



Assuntos Militares
- Em algum momento passado o Centauro B1 chegou a ser oferecido ao Brasil?

Giovanni Luisi - O CIO nunca propôs o Centauro ao Exército Brasileiro.


Assuntos Militares
- Na sua visão, quais as principais vantagens que o Centauro II oferece em relação aos seus principais competidores no programa do Exército Brasileiro?


Giovanni Luisi -
Não podemos entrar nos méritos específicos do programa do Exército Brasileiro por razões de confidencialidade. No entanto, de modo geral, muitos competidores usam uma combinação de sistemas derivados, e o Centauro não é uma combinação de um sistema de armas autônomo e de uma plataforma derivada da de um blindado de combate de fuzileiros. É um sistema novo, projetado especificamente para esta função, o que significa que seus sistemas são projetados (e não apenas otimizados) para atender ao melhor compromisso possível em termos de desempenho (mobilidade e poder de fogo) e dimensões.

O Centauro II é o único sistema capaz de integrar canhões de 120mm, o que garante o mesmo poder de fogo de um moderno CC. O Centauro II é uma solução completa, testada e qualificada como um sistema completo do Exército Italiano, com uma linha de produção atual: é uma solução sem riscos.



Assuntos Militares
- Que vantagens o Sr. vê na torre HITFACT em comparação com as outras torres que estão sendo oferecidas ao Brasil em outras viaturas?


Giovanni Luisi -
Conforme já mencionado, não estamos autorizados a discutir o programa Brasil, portanto, a resposta será em um contexto geral, e não específico para o Brasil.

Além de ser uma solução já desenvolvida, integrada e testada em conjunto com a plataforma Iveco, a torre HITFACT da Leonardo é capaz de integrar os canhões de 105 mm e 120 mm como armamento principal. O canhão de 120 mm é um elemento único do HITFACT, atualmente o único sistema desse tipo no mundo em serviço em uma plataforma 8x8, tanto na Itália com o Centauro II 120, como no Sultanato de Omã com o Centauro 120.



Assuntos Militares
- Um dos trunfos do Centauro é que a Iveco já tem instalações fabris no Brasil (em Sete Lagoas-MG). O Sr. poderia tecer comentários adicionais sobre a capacidade dessas instalações e como elas se encaixariam na produção local do Centauro II?


Giovanni Luisi -
A Leonardo e a Iveco têm duas empresas no Brasil, CNH Brasil e Leonardo do Brasil. Ambas as empresas podem se envolver, em conjunto com o CIO, em qualquer projeto brasileiro de nacionalização da produção

A Iveco Defense Vehicles tem uma presença industrial relevante no Brasil, aliada a uma sólida cadeia de suprimentos com parceiros locais. O complexo militar de Sete Lagoas foi instalado em um complexo industrial de maior porte (CNH Industrial) para produzir a nova família de veículos blindados anfíbios VBTP Guarani 6x6 (com quase quinhentas unidades entregues com sucesso) e os veículos 4x4 LMV. A fábrica da Iveco em Sete Lagoas, como fábrica especializada na produção de modernos veículos blindados, é a escolha natural para implantar a produção de outros sistemas, dinamizando o relacionamento local e a cadeia de abastecimento, criando novos empregos e confirmando seu papel de polo tecnológico altamente especializado.



Assuntos Militares
- Obviamente, o CIO utilizaria, para a produção no Brasil do Centauro II, muitos dos fornecedores que já estão trabalhando no Guarani. Gostaríamos o que o Sr. comentasse sobre que vantagens surgiriam para a indústria nacional caso o Centauro II seja o escolhido?


Giovanni Luisi -
Essas atividades acontecem por meio de uma transferência de tecnologia para empresas brasileiras. O CIO e os dois consorciados (Iveco e Leonardo) têm grande experiência no setor. A indústria brasileira pode dar um salto tecnológico significativo e receber cargas de trabalho substanciais nos próximos anos. A criação de um polo tecnológico de excelência no Brasil também representa um recurso para o CIO, que também pode ser explorado para produzir sistemas para novas oportunidades, principalmente no mercado latino-americano. Alguns exemplos de nossa colaboração com as indústrias de outros países são vistos na Romênia, Polônia, Espanha, EUA, etc.



Assuntos Militares
- Além do Brasil, o CIO vê outras oportunidades para colocação no Centauro em países sul-americanos? Caso positivo, quais?


Giovanni Luisi -
Atualmente existem algumas outras oportunidades interessantes em países da América do Sul com requisitos sendo definido. Certamente a escolha do Brasil afetará esses programas também.



Assuntos Militares
- Algo mais que o Sr. gostaria de destacar?


Giovanni Luisi -
Vale a pena destacar que o Centauro II foi submetido a um processo de qualificação pelo Exército Italiano, de acordo com as mais rigorosas normas da OTAN. O Centauro II foi analisado e verificado, num processo longo e extremamente complicado, como acontece com esse tipo de sistemas, incluindo todas as suas peças, desde os conjuntos individuais até o desempenho do sistema completo (incluindo a certificação da proteção balística). Os futuros utilizadores irão certamente se beneficiar deste processo, tendo à sua disposição uma solução isenta de riscos, já submetida a todos os testes, mas sobretudo uma solução rápida, considerando também a vantagem de ter uma produção paralela para Itália.



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