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25 de abril de 2026

Conflitos contemporâneos: ambiguidade, influência e domínio cognitivo na era híbrida


A guerra mudou ao longo dos séculos. No século XXI, forças tradicionais convivem com ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e pressões econômicas. O objetivo não é apenas vencer militarmente. Busca-se produzir efeitos estratégicos sem declarar guerra formalmente (Hoffman, 2007; Bērziņš, 2020).

A primeira geração, nos séculos XVII e XVIII, foi marcada por linhas e colunas, disciplina rígida e mosquetes. Os exércitos napoleônicos exemplificam esse modelo (Howard, 1976). A segunda geração, do século XIX ao início do XX, trouxe trincheiras e artilharia. A Primeira Guerra Mundial, com Somme e Verdun, simboliza esse paradigma (Strachan, 2001). A terceira geração, em meados do século XX, consolidou a guerra de manobra. A blitzkrieg alemã e a Guerra dos Seis Dias mostram a importância da velocidade e da surpresa (Citino, 2004).

A quarta geração deslocou o foco para a guerra irregular. Vietnã, Afeganistão e guerrilhas na América Central são exemplos. A Colômbia viveu décadas de conflito com as FARC, mesmo após o acordo de paz de 2016. A Chechênia enfrentou duas guerras e insurgências até 2009 (Lind et al., 1989). A guerra híbrida, descrita por Hoffman (2007), combina meios convencionais e irregulares, terrorismo, criminalidade e operações cibernéticas. Casos como Geórgia (2008), Ucrânia (2014), Síria (desde 2011) e Líbia (desde 2014) ilustram essa ambiguidade (Mumford & Carlucci, 2022).

A quinta geração desloca o centro de gravidade para o domínio cognitivo. Segundo Bērziņš (2020), a guerra atual é travada na mente. Inteligência artificial, big data e manipulação algorítmica moldam percepções. A guerra Rússia–Ucrânia desde 2022 mostrou como campanhas digitais podem ser decisivas. Na América Latina e na África, entre 2010 e 2020, a desinformação em eleições tornou-se arma política. Qiao e Wang (1999) já haviam previsto que os conflitos futuros seriam irrestritos.

Figura 1
Evolução das gerações de guerra

Fonte: elaborado pelo autor (2025).

A evolução das gerações de guerra pode ser observada não apenas na narrativa histórica, mas também nos recursos visuais que acompanham este artigo. A Figura 1 apresenta a progressão das gerações, enquanto o Quadro 1 organiza suas características e exemplos em diferentes regiões. Esses elementos reforçam a análise e permitem ao leitor visualizar como meios cinéticos e não cinéticos se combinaram ao longo do tempo.


A análise das gerações da guerra e da ascensão da guerra híbrida mostra que os conflitos atuais não podem ser compreendidos apenas pela ótica militar. Eles atravessam fronteiras e envolvem múltiplas dimensões. Desde os anos 2000, o Cáucaso, o Oriente Médio, a Ásia e a América Latina tornaram-se laboratórios da guerra híbrida e cognitiva. A invasão da Geórgia em 2008, os combates em Nagorno-Karabakh em 2020 e 2023, a insurgência chechena até 2009, a guerra civil síria desde 2011, a insurgência iraquiana e a ascensão do Estado Islâmico, a guerra civil líbia desde 2014, os ciclos de violência no Sahel e no Tigré, além da persistência da guerrilha colombiana e da guerra contra os cartéis no México, demonstram que meios cinéticos e não cinéticos operam em sinergia.

A Figura 1 e o Quadro 1 sintetizam essa evolução, mostrando que a guerra contemporânea é menos sobre ocupar território e mais sobre ocupar mentes. Para países como o Brasil, compreender essa dinâmica é essencial para formular estratégias de defesa e segurança que considerem não apenas o campo militar, mas também os domínios informacional e psicológico. Quem dominar fluxos de informação e confiança pública terá vantagem decisiva.

Fonte. Elaborado pelo autor, 2025.
Autor. S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi.

REFERÊNCIAS

Bērziņš, J. (2020). The theory and practice of new generation warfare: The case of Ukraine and Syria. Journal of Slavic Military Studies, 33(3), 355–380.

Citino, R. M. (2004). Blitzkrieg to Desert Storm: The evolution of operational warfare. University Press of Kansas.

Hoffman, F. (2007). Conflict in the 21st century: The rise of hybrid wars. Potomac Institute for Policy Studies.

Howard, M. (1976). War in European history. Oxford University Press.

Lind, W. S., Nightengale, K., Schmitt, J. F., Sutton, J. W., & Wilson, G. I. (1989). The changing face of war: Into the fourth generation. Marine Corps Gazette, 73(10), 22–26.

Mumford, A., & Carlucci, P. (2022). Hybrid warfare: The continuation of ambiguity by other means. European Journal of International Security, 8(2), 192–206.

Qiao, L., & Wang, X. (1999). Unrestricted warfare. PLA Literature and Arts Publishing House.

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